Mostrando postagens com marcador prosa. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador prosa. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

O Terço do Pedro


Mais uma vez eu queria falar de eleições. Mas mais uma vez a pasmaceira delas foi atropelada por uma coisa mais interessante. Dessa vez o relato auto-biográfico de uma experiência completamente estranha que eu vivenciei ontem, aparentemente um "must" da Zona Sul do Rio que já rola a muitos anos, proporcionado pelo puro boca a boca, sem ajuda da imprensa.

Eu estou com a minha companheira. Quando eu e ela chegamos ali na igrejinha que tem em frente ao shopping da Gávea, a missa das 18:00 está pra começar. O padre vem se encaminhando quase entediado pro altar, e eu noto que os bancos estão estranhamente ocupados: Apesar de razoavelmente cheios de pessoas, possuem também lacunas ocupadas simplesmente por bolsas, chales, casacos... Todas essas coisas que o carioca (aliás, qualquer pessoa) usa pra "marcar lugar". É terça feira. Chove cântaros. O padre é um saco. A igreja não é especialmente bonita. E no entanto, a julgar pelos objetos, tem muita gente interssadíssima em estar ali.

É claro que eu não estava chegando totalmente desavisado naquele local. Se estivesse, eu sairia logo no começo da missa, em que o padre lê justamente a carta bíblica que diz que a mulher deve ser submissa ao marido. Acostumado com a pregação de Padres mais progressistas (mas só um pouquinho), esse papo me irita. Mas não. Diferente do cachorro, que só entrou na igreja por que a porta estava aberta, eu tinha uma noção do que me esperava ali dentro. Ou, por outra, eu achava que tinha.

Ao longo da missa (chatíssima e burocrática), a igreja vai enchendo. Muito. Praticamente indiferente ao sermão do Padre, dezenas de pessoas (a maior parte delas mulheres) vão ocupando os lugares antes preenchidos pelos chales, casacos e bolsas, e pequenos conflitos e picuinhas bem mundanos começam a se instaurar na casa de Deus. Aqui uma senhora diz que aquela outra senhora não pode guardar mais do que cinco lugares, ali aquela outra implora uma cadeira pro tio que tem Alzheimer. Aquela última parte da missa que vem depois da eucaristia, em que o padre pede as pessoas que elas se abracem na "paz de cristo", é sumariamente suprimida. O Padre (que, eu esqueci de dizer, tem um sotaque meio espanhol, como quase todo padre) sai de cena e ninguem nota.

A igreja não para de se encher. As pessoas vão se acomodando de todas as formas, e inclusive agora que o altar está vazio elas não se furtam a conspurca-lo também, sentando-se ali como podem. A conversa aumenta, a temperatura aumenta. Quando nos damos conta um coroinha já ligou um ar-condicionado no máximo e uma simpática senhora do nossao lado é obrigada a dialogar com o sujeito como se eles estivessem na fila da peixaria do Asterix. Os focos de barraco são contidos com dificuldade por uns poucos "psius" desentusiasmados. Apesar disso somos brasileiros, creio que todos estão felizes e satisfeitos com alguma bagunça. A igreja de repente vira uma grande sala de assembléia, não de Deus, mas do homem mesmo, com todas as suas miudezas e mesquinharias. Eu e minha companheira já estamos a muito tempo bem instalados em duas cadeirinhas de plástico na lateral da nave, mas nossa posição é súbitamente ameaçada por uma velha senhora meio alemã, que já se sentara, mas parece fazer questão daqueles lugares para uns amigos hipotéticos dela. Não cedemos. A igreja parece agora cem por cento lotada e ninguem tem ânimo de sair dali.

Já mencionei o quanto chove? Chove muito. Mais do que você está pensando, pense grande. Isso. Por aí. Pois bem, com essa chuva toda, eu de repente reparo que existem dezenas (serão centenas, meu Deus?) de pessoas grudadas nas janelas com vitrais da igreja. Rostos e mais rostos semi-encobertos por guarda-chuvas, que aguardam ansiosamente. Vinda sei lá daonde, no altar surge uma jovem moça chilena, muito bonita, que diz que veio falar sobre o corpo místico de Cristo. Moça, o que é o corpo místico de cristo? Nós somos o corpo Místico de Cristo, ela diz. Ela diz e ninguém parece estar escutando. Uma lojinha de souveniers instalada do lado de fora da igreja disputa atenção com a chilena e aos poucos vai-se notando que a loja dá mais ibope. Eu e minha companheira compramos terços (na verdade ela vai e compra pra nós, se não nossas cadeirinhas de plástico seriam ferozmentemente tomadas) e finalmente parece que a coisa já vai começar. A moça chilena termina seu discurso com muita paixão, mas é só burocraticamente aplaudida antes de sair de cena. Sobem agora no altar (tomando cuidado para não pisar nos fiéis sentados) uns dois ou três técnicos de som carregando pedestais, fios e microfones. Show Time. Pedro entra em cena já empunhando seu violão e eu quase ouço, mas acho que foi só a minha cabeça, alguém dizendo pra ele "vai lá e arrasa!".

Pelo que eu pesquisei depois, o terço do Pedro é um lance que já rola a mais de dez anos. O Pedro não é o Papa, não é nem padre, mas é seguramente POP. Bonito, arrumado, educado e inteligente, possui ainda a vantagem de tocar violão de um jeito muito mais autêntico do que a maior parte dos músicos de igreja. O repertório não instiga muito, são as mesmas canções água com açucar da chamada "renovação carismática", mas a voz do cara é agradavel de se ouvir e até empolga. Pedro fala algumas palavras à guiza de conselho, e de cara vê-se que ele tem incomparavelmente mais carisma do que o padre e a moça que o precederam.

A pessoa precisa mesmo de carisma para, uma vez por mês, fazer o que Pedro se propôe a fazer. Não é uma missa, não é um show, não é uma sessão de auto-ajuda, embora possua elementos dessas três coisas. O que acontece dentro daquela igreja super-lotada é, pasmen, uma das práticas mais antigas e fora de moda da religião católica: a reza do terço! A grande questão do "terço do Pedro" é o que leva tantas pessoas a gastarem mais de uma hora de seus dias atribulados (e debaixo de chuva, não se esqueça) reazando a bagatela de:

53 Ave-Marias
6 pais nossos
5 Mistérios
5-Glórias

E volta e meia um credo, ou um santo anjo....


O que leva?

A grande questão não está (não só, veja bem) no talento violonístico de Pedro. Não. O grande lance dele não é o ouvido músical, mas o ouvido Sobre-Natural: A coisa fundamental que eu escondi de vocês até aqui é que Pedro é conhecido por ter o Dom do Espírito Santo, ou seja, uma linha direta com Nossa Senhora que lhe permite dar mensagens, conselhos e até prever o futuro. As pessoas que abarrotam a igreja estão ansiosas (e no fundo eu estava ansioso também) para ouvir uma das muitas mensagens que a virgem deveria passar para Pedro. De repente toda a nossa fé no positivismo científico, todas as nossas críticas aos padres pedófilos, todo o nosso posicionamento moderninho de esquerda, tudo isso parece não ter importância. Estamos todos rendidos escutando Pedro e, a grande estrela, a Virgem.

E os dois não decepcionaram: Foram muitos os recados dados, alguns extremamente genéricos e outros tão específicos que continham até o nome da pessoa envolvida. Um homem com tumor no cérebro foi avisado de que o tumor era superficial. Uma jovem (que teve seu nome anunciado) foi aconselhada a se livrar de um namorado insistente. Um homem foi tranquilizado pela virgem, pois "apesar de sua música estar encaixotada em meio a processos enfadonhos, ela irá progressivamente crescer". Uma família foi avisada de que um membro seu que tinha uma doença grave iria se recuperar. Não sei bem o que passou pela minha cabeça nessa hora, mas acho que teve a ver com fé. Fé sincera na energia daquela gente rezando junto.

A coisa se dá de forma tão intensa e catártica que eu quase puxei um aplauso ou um "bis" no final, de tão empolgado que fiquei. Mas, mesmo que eu tivesse feito isso, não teria sido seguido, pois a maior parte dos fiéis está muito mais interessada em ir até Pedro. É dificilimo chegar até ele. Muitos parecem desesperados para saber se ele possui mais um recado de Nossa Senhora, algo que, quem sabe, diga respeito diretamente a elas. As outras pessoas vão, em hordas, saindo da igreja num papo animado. Nada daquele clima meio paradão de "pós-entorpecimento" que a maioria de nós experimenta depois de uma missa. Alguém arma uma mesinha com lanche na porta. Ouço duas moças combinando de se re-encontrarem ali mesmo no mês que vem, no próximo terço. Eu me pergunto se assisti a um milagre da magia, da religião ou simplesmente da sociedade. Ou de todos esses. Muitos enxugam os olhos, parecem ter chorado muito durante a nada cerimoniosa cerimônia. Dificil acreditar, no instante em que saímos porta a fora, que estamos no Rio de Janeiro, século XXI.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

GILBERTOS

Queridos amigos, ando desanimado em continuar a história das "peças de ouro". Ela está todinha na minha cabeça, mas ando sem saco de escrever. Nesse meio tempo pensei em escrever algumas coisas sobre as eleições, mas a quantidade de chatices que eu tenho recebido é tão grande e o nivel das campanhas está tão ridiculamente baixo que eu me desanimei disso também. Mas isso no fundo até que é bom, por que essa conjunção me animou a escrever sobre uma coisa que eu gosto muito mas sobre a qual eu raramente paro pra pensar de forma "analítica": Música! Espero que vocês leiam e gostem, especialmente por que, entre Ians, Gustavos, Suts, Brancos e Lauras, quase todos os leitores desse blog são violonistas.

















Gilbertos.

O Caetano escrevendo quase sempre é uma desgraça, mas ainda assim eu tenho o bom hábito de ler quase tudo que ele escreve. A pessoa, quando faz isso, pode encontrar algumas pérolas a princípio escondidas no mar de frases de efeito e achismos que é a sua prosa. Esses dias, assistindo pela milésima vez o DVD “Banda-dois” do Gilberto Gil (que é sobre quem eu quero falar, na verdade) eu me dei conta de que concordava em parte com uma frase contida no “Verdade Tropical” com a qual eu a princípio discordara veementemente. Cito aqui o trecho em questão:

“De todo modo, parece-me que minha escolha indica que o mais importante do violão brasileiro se passou nas revoluções aparentemente despretensiosas de autores-cantores que usavam o instrumento apenas para ‘se acompanhar’ do que no concertismo mais ou menos brilhante dos solistas”

Claro que eu, por princípio, deveria discordar do que foi dito. Sou filho de um grande violonista clássico, por conta de quem conheço alguns grandes nomes do meio, e entendo que essa frase despreza sumariamente a contribuição de gente como o Duo Assad, Egberto Gismonti e Carlos Barbosa Lima, só pra citar alguns dos meus solistas prediletos. Quando assisti o DVD do Gil, no entanto, compreendi finalmente o que o Caetano queria dizer. Mantenho minha posição de reverência aos solistas aqui citados, mas agora vejo que há na música popular, em que o violão é acompanhamento, um desenho tortuoso que faz toda uma trilha de relações possíveis entre os paradigmas COMPOSIÇÃO x INTERPRETAÇÃO, e que essa relação pode tranquilamente ter sido o fato “mais importante do violão brasileiro”.

Comecemos por João Gilberto. Não que a história do violão de acompanhamento pré-João Gilbertiana não seja interessante, mas é em João que toda uma tradição de meneios e floreios do violão de samba é finalmente sintetizada em uma estrutura ascética e claramente delineável: a famosa “batida” da bossa nova. João limou da estrutura rítmica de seu samba tudo o que não fosse absolutamente essencial, chegando a uma estrutura mínima tão potente que só pode ser explicada como um novo gênero musical (ainda que João tenha dito e repetido que o que ele faz é simplesmente samba). Violonista e cantor de virtudes únicas, João Gilberto não foi um compositor prolixo, assinando apenas “Bim-bom”, “Ho-ba-la-lá” e alguns temas instrumentais, sendo a sua maior virtude a sub-versão de músicas de outros compositores, que em suas mãos revelavam-se e adquiriam novas faces antes insuspeitas.

Despretensiosamente, vamos ouvir e pensar. Quais são alguns dos caracteres fundamentais do violão de João Gilberto? A batida, claro, é a pedra base. A harmonia complexa também não pode ser esquecida, e a relação sincopada entre a instrumentação e a voz talvez seja o terceiro fator mais importante. Esses três dados atravessam de forma vertical praticamente toda a obra de João, criando uma relação em que a música a ser tocada se submete a uma linguagem do músico. Sambas, Bossas, Choros, Boleros, Baladas, toques de candomblé... tudo isso, quando tocado por este músico, ganha a batida, as harmonias complexas e a síncope. O violão de João é assertivo, masculino: em João Gilberto, o músico prevalece sobre a música.

Ora, se pensarmos que João é reconhecidamente a grande influência de gente como Chico Buarque, Edu Lobo, Jorge ben, Roberto Carlos e os próprios Caetano Veloso e Gilberto Gil, e se pensarmos ainda que tudo o que aconteceu posteriormente na música popular brasileira teve influência de alguma dessas figuras, podemos assumir que João inaugurou uma tradição, e não há dificuldade de entender que muito disso se refletiu na forma de tocar o violão por parte dos brasileiros e brasileiras. Penso agora em três exemplos de seguidores claros de João: Jorge ben, João Bosco e Lenine, três violonistas que desenvolveram suas próprias batidas (todas geniais, diga-se), submetendo a elas um variado escopo de músicas.
Pois bem. No DVD “Banda Dois”, do Gil, eu me dei conta de que essa tradição tinha dado origem a uma contra-tradição tão poderosa quanto. Acredito que Gilberto Gil (que ouviu muito João Gilberto) tenha sido o grande responsável por essa mudança de paradigma, mas reconheço traços dessa contra tradição também no violão de Guinga, por exemplo. Mas o que seria essa contra-tradição? Explico-me. O DVD do Gil, que mostra ele quase o tempo inteiro sozinho com seu violão, é uma jóia para qualquer um que ame o instrumento: Gil enxerga a canção antes de enxergar o arranjo, submetendo este a esta. A cada faixa a sua forma de tocar muda radicalmente, sempre para incorporar soluções novas e inventivas que possam dar vazão a algum traço daquela canção específica. É impressionante que a forma curiosa de usar as cordas soltas em “Refazenda” tenha vindo da mesma cabeça da harmonia acompanhada de linha de baixo de “Esotérico” e é mais impressionante ainda que ambas sejam obras do mesmo violonista que compôs a mão direita nervosa de “expresso 2222”. O violão de Gil é passivo para que a música o oriente, assertiva. É feminino como a porção mulher da canção “Super-Homem”. É a música guiando o músico.

Compreendo melhor, a partir de um diálogo entre essa tradição e dessa contra-tradição do violão brasileiro, o momento que o instrumento vive hoje na música pop, nas mãos responsáveis de gente como Chico Cesar e Paulinho Moska. Esses, como o próprio Caetano Veloso, são violonistas que equilibram suas “batidas” pessoais com determinadas invenções guiadas pela música que eles estão tocando, gerando peças de rara beleza e grande inventividade. Se muitas dessas interpretações, como grande parte das linhas de violão feitas por Gil, são assombrosamente simples, só quem ganha é o amador que, como eu, busca beber nas águas dos grandes mestres. João Gilberto e Gilberto Gil, o masculino e o feminino, me fizeram entender que a música pop é sim um terreno muito fértil para a invenção violonística, seja com uma postura assertiva ou passiva diante da canção, e é inspirador seguir a linha evolutiva do instrumento por eles escolhido. Sem demérito algum para os nossos grandes solistas (viva os Assad!) eu passo a ver essa dialética entre os Gilbertos como, sim, o “mais importante do violão no Brasil”.

sábado, 18 de setembro de 2010

Cem Peças de Ouro, Parte 1. - "O Túmulo Vazio"

Há muitas histórias sobre a cidade de Santo Mar. Conta-se que ali houve o único caso no mundo de uma ditadura movida por razões Literárias, por exemplo, um "causo" contado na peça "Das Águas que Vem de Lá". É fato sabido também, entre os estudiosos do tema, que hoje a cidade não existe maispor causa de uma experiência mal sucedida de um bruxo daquelas bandas, que transformou toda a areia da praia em vidro. O escrito que se segue agora, um episódio pitoresco do tempo em que Santo Mar era pouco mais que uma aldeia com casas de madeira, chegou até mim por carta, enviado por uma ex-namorada geóloga. Ela, sabendo do meu interesse por esses assuntos, me enviou um pacote contendo antiquíssimas placas de argila com escritos em grego, e uma carta explicativa. Porém, furioso que eu estava com o fim do nosso namoro, rasguei a carta explicativa, que provavelmente continha informações cruciais sobre o local onde essas placas foram encontradas e, portanto, sobre onda ficava Santo-Mar. Quando voltei a mim, muito envergonhado, vi que só tinham me restado as placas em sí para traduzir e publicar aqui, como se fossem peças de ficção. Meu conhecimento de grego antigo é vergonhoso, por tanto não garanto que tenha feito uma boa tradução, mas acho que produzi uma obra no mínimo agradavel de ser lida. Aos que, como eu, continuam pesquisando o passado de Santo-Mar, digo para não perdermos a esperança de provar a existência dessa fantástica cidade, procurando documentos, artefatos e depoimentos que dêem credibilidade científica ao que até hoja é mera especulação.
Começa assim a históia que eu traduzi das placas:
Nem sempre o povo de Santo Mar foi próspero no comércio com as cidades estrangeiras, e nem sempre criou-se, nessa cidade, o boi, o porco e a galinha. Muito antes disso, e antes também que a cidade fosse murada com pedra, todos comiam quase que exclusivamente o peixe que o mar trazia. Na verdade o mar não tinha costume de trazê-lo assim como quem entrega algo de graça, por isso foi necessário que os homens fortes e bronzeados daquele tempo aprendessem as artes da pesca.
Era costume das casas que cada varão, ao completar quinze anos, construísse seu prório barco e se lançasse na Praia do Leste para pescar os Peixes Grandes. Essa praia era de mar aberto, e era considerada perigosa. Quando o homem completava cinquenta anos, podia parar de ir para a Praia do Leste e ir para a Praia do Oeste, na verdade uma enseada, onde as águas eram calmas. Esse homem já tinha provado seu valor e podia descansar. Lá ele podia pescar pequenos peixes, ensinar os mais novos os seus segredos com a vara e a rede, ou simplesmente passar as manhãs e tardes no raso bebendo o destilado de côco que as mulheres de Santo Mar produziam com tanta arte e esmero.O Pai de Amora tinha quarenta e nove anos e trezentos e sessenta e quatro dias quando pegou o barco naquela manhã, pensando "Ainda bem que é a última vez". Ele não via a hora de se aposentar das vagas perigosas do mar aberto, já estava cansado de arrancar do mar o que este tinha de mais precioso, que eram os Grandes Peixes. Não. Ele queria fazer as pazes com o mar, e já se via boiando na praia do Oeste compondo músicas para o mar, o mar que seria agora seu melhor amigo, e não mais seu poderoso inimigo. O Pai de Amora arrastou o barco da areia até a água.
Não se sabe se o Mar concordava ou discordava muito do Pai de Amora, mas qualquer que fosse seu ponto de vista, ele se fez ouvir com excessiva eloquência. Fosse para abraçar com mais vigor o pescador, fosse para puni-lo pelos peixes pescados, naquele dia o mar fez cair uma tempestade tal que as ondas ficaram maiores do que casas e os ventos ficaram mais rápidos do que pensamentos. O cruel é que a chuva só se deu em alto mar, e bem no ponto em que estava pescando o Pai de Amora. Ninguém na cidade sentiu um pingo da'água que fosse, e só os que estivessem parados bestando na areia é que veriam umas nuvenszinhas cinza bradando trovões no horizonte.
Como se não estivesse sub-entendido, que fique claro que o Pai de Amora não voltou do mar.A morte do homem foi uma imensa tristeza em sua família e motivo de muito pesar entre seus companheiros pescadores, mas não se pode usar aqui a palavra "surpresa" para se referir a morte de um pescador no mar. Não que fosse algo recorrente em Santo Mar, que tinha pescadores muito habilidosos, mas também não era incomum. A família do Pai de Amora sempre esteve preparada para se um dia isso acontecesse, e a única coisa mais triste foi o fato do homem ter chegado tão perto da aposentadoria. Isso se resolveu com uma ida do sacerdote até a casa das duas mulheres (O Pai de Amora tinha uma esposa e uma filha, que se chamava Amora), ocasião em que ele disse assim:
-Os designios dos deuses são inescrutáveis, e não foi por acaso que o marido e pai de vocês foi levado tão perto da aposentadoria. Na verdade os deuses agiram sabiamente, pois assim o marido e pai de vocês viveu tempo o bastante para juntar muito dinheiro e não deixar vocês em necessidade, mas também não ficou velho o suficiente para tornar-se um parasita das suas mulheres.
Depois dessas palavras cheias de verdade e sabedoria, ficava sobrando só um último problema: a religião de Santo-Mar dizia que os mortos só alcançavam a salvação se seus corpos fossem devidamente sepultados, e como sepultar alguém que morreu no mar e por ele foi engolido? Claro que em pouco tempo o povo da aldeia deu um jeitinho na religião, já que mortes como a do Pai de Amora não eram raras: enterrava-se, no cemitério próximo ao mar, um caixão vazio que tivesse as medidas do morto, e procedia-se durante o enterro como se o seu corpo estivesse de fato lá dentro. Os homens discursavam, as mulheres pranteavam, etc. Isso era como se fosse um "vale-corpo" para os deuses.
Assim ocorreu com o pai de Amora, que morreu no mar enquanto pensava "Eu cheguei tão perto" e foi "como-que-enterrado" depois de três dias depois de não voltar, quando sua mulher, sua Filha Amora e seus muitos amigos e vizinhos choraram muito diante de um caixão que todos sabiam estar vazio. Depois da terra ser re-colocada em cima do caixão e de uma pedra com o nome do morto ter sido posta ali marcando o local, todos voltaram para as suas casas para retomar as suas tarefas.
As duas mulheres, a Amora e a mãe de Amora, voltaram para o seu luto.
Quando o sol ainda estava alto, a Mãe de Amora fechou todas as cortinas e janelas da casinha onde elas viviam, e acendeu umas poucas velas em cada cômodo.
Enquanto o sol se punha, Amora, que tinha quatorze anos, abriu de fininho uma frestinha na sua janela, queimou um ramo de hortelã e rezou assim:
"Meus Deuses, eu sei que os senhores não acreditam nessa história de caixão vazio como sendo o morto, eu sei que o espírito do meu pai ainda está sofrendo muito lá no mar. Façam o mar trazer o corpo dele de volta, que é pra ele ter paz".
Depois que caiu a noite em Santo Mar, se houvesse alguém ainda no cemitério perto da praia essa veria um estranho vulto se aproximar, correndo pela floresta. Quem é, e o que traz num saco atrás das costas essa sombra que se movimenta com uma rapidez tão desesperada?

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

intolerância religiosa


Acho uma imensa babaquice isso que algumas pessoas dizem da Marina, que não votariam jamais nela por que ela é evangélica. É parecido com as outras tantas que não votaram no FHC por que ele disse que não acreditava em Deus. Graças a Deus (?) nós vivemos num país laico, em que o âmbito religioso é inteiramente desassociado do âmbito do poder.
O que acontece é que nos últimos 20 anos ocorreu a explosão de alguns modelos de igrejas evangélicas arrebataram muitos fiéis a partir de táticas diferenciadas das usuais estratégias de conversão da igreja católica, até então praticamente hegemônica no Brasil. Não vou entrar aqui no mérito do por que disso, pois há os que dizem que foi por conta de um desgaste da Igreja Católica e outros que falam de lavagem cerebral por parte dessas novas igrejas. Acreditando que a resposta esteja em algum ponto entre esses dois extremos, não deixo de crer que exitstam fiéis que de fato se converteram por compactuarem filosoficamente com a nova fé que abraçaram, sem nenhum tipo de "conspiração" envolvida.
É certo que aqui no Rio de Janeiro muitos de nós se incomodam com a poluição sonora das igrejas evangélicas (me desagrada muito o pastor que volta e meia fica berrando estridentemente na esquina da Av. Atlântica com a Rep. do Peru, atrapalhando o domingo dos outros, e também algumas pessoas na rua que tentam AGRESSIVAMENTE me convencer de algumas verdades), e me refiro aqui principalmente a Igreja Universal do Reino de Deus, que junto com a Igreja Renascer possui o agravante de estar ligada a diversos escândalos de corrupção. No entanto é necessário aqui termos o cuidado de inão incorrer em um preconceito. Não gosto dos candidatos que usam sua condição na igreja para se elejer, alardeando isso, primeiro por que esses geralmente são os mesmos que se envolvem em corrupção e segundo por que isso fere o laicismo do nosso estado. Agora... Isso é o caso da Marina? Estamos falando aqui de uma candidata que simplesmente possui uma fé, como o Lula possui a sua, e não deve ser julgada por conta disso. Até por que eu bem sei (tiro por mim) como é pessoal e intransferível a relaçao do fiel com a sua crença. Julgar a Marina por sua crença seria pretender entender a sua espiritualidade, o que nem de longe devia passar pela cabeça de qualquer um.
Não podemos ser preconceituosos e nem combater o que chamamos de fundamentalismo com MAIS fundamentalismo. Aliás, no último ano a maior parte das afirmativas irracionais e ofensivas que eu tenho ouvido em relação a fé alheia tem vindo de... ATEUS! Mas isso é papo pra outra hora.

Por agora quero divulgar essa resposta simples e esclarecedora da Marina sobre essa questão da sua religiosidade, que, eu vim a descobrir, começou por conta de um boato sobre o fato dela defender o ensino do criacionismo nas escolas. Me chamou muita atenção o final, em que ela defende que essa é uma polêmica importada. Gostei. Se vocÊ parar pra pensar, tem bem pouco cara de Brasil essa polêmica em que envolveram ela.


retirado do site oficial de Marina Silva em 13/09/2010

Você defende o ensino do Criacionismo nas escolas?


Assim como 90% dos brasileiros, eu acredito que Deus criou todas as coisas, mas não busco uma justificativa científica para a minha fé.

Fui envolvida nessa discussão por uma confusão que começou durante a visita que fiz em 2008 a um Centro Universitário confessional Adventista para falar sobre meio ambiente. Lá, concedi entrevista a um estudante para a rádio da faculdade de Comunicação. Ele queria saber se eu achava que as escolas adventistas deveriam ter o direito de ensinar o Criacionismo. Eu disse que sim, desde que junto com o Criacionismo, os alunos estudassem também o Evolucionismo para formar seu próprio pensamento depois.

O que eu respondi na entrevista foi uma defesa do ensino do evolucionismo darwinista dentro das escolas religiosas. Sem que a informação fosse verificada comigo, alguns veículos, então, passaram a divulgar o oposto: que eu defendia o ensino do Criacionismo em todas as escolas.

Escolas confessionais ou religiosas são permitidas pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação, aprovada em 1996. É por isso que existem escolas judaicas, espíritas, protestantes, bahais e católicas. E nessas escolas é permitido o ensino religioso.

O curioso, ainda, é que essa é uma polêmica importada dos Estados Unidos. Aqui, as pessoas religiosas não tem essa indisposição com a ciência. Lá, há um acirramento entre criacionistas e evolucionistas que disputam um cabo-de-guerra para ver quem está certo e quem está errado. No Brasil, graças a Deus, essa “Guerra Santa” não acontece. E nem deve acontecer!

Marina Silva

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

O FIM

Morto o sujeito, é costume que se o enterre. Costume ambíguo esse do sepultamento, pois que por um lado visa o ocultamento do que não se quer mostrar (tirar das vistas dos vivos os que já estão putrefando) e por outro consiste numa cerimônia alardeada inclusive no jornal, em que se espera que todos os conhecidos do morto compareçam. O fim da vida é assim um escuso mistério (sempre) mas é também um "festivo" desenlace de uma trama. No enterro, ritualiza-se o fato de que aquele ali já pode ter sua vida lida pelos outros: Já teve principio, meio e fim. O morto, e as coisas finalizadas, em geral, tem algo que aos vivos sempre é negado: a capacidade de exibir simetrias, harmonias, sentidos, caracterísitcas que nós, seres em trânsito, não temos.

O fim, portanto, é necessário pra que se note a beleza da forma. Enquanto uma coisa está acontecendo ela é mais como uma música, série de linhas melódicas que combinam harmonia ou tensão em momentos fugazes, e que tem uma beleza da qual podemos até nos tornar parte (como numa dança) mas nunca poderemos verdadeiramente apreciar com distanciamento. Para que haja esse tipo de prazer, a coisa tem que ter início, meio e fim.

Esse talvez seja um bom consolo para lidarmos (nós, vivos, seres ainda infindos) com a finitude das coisas e até de nos mesmos. É só depois do fim que viraremos beleza apolínea, linha de obra de arte. Dizer, no fim de um relacionamento, que "está tudo bem por que a vida continua" é por certo uma verdade luminosa, mas talvez tão luminoso quanto seja reconhecer que o relacionamento, agora finalizado, cristalizado, deixou de ser música ecoando para virar quadro a ser posto no nosso relicário pessoal. Na sala de estar da alma, podemos alardear "esse é um belo relacionamento que eu tive, e ainda combina com o meu sofá".

Por certo essa coisa de ser brasileiro, indivíduo essencialmente musical, me faz desgostar do fim das coisas, esse fator ordenador. Prefiro o calor amorfo do estar sendo do que o equilíbrio harmônico do foi. Escrevo esse texto (textos são interessantes, tem sempre que ser finalizados) para me adestrar a lidar com essa verdade indiscutivel: As coisas sempre tem fim.

Por outro lado...

Li a um tempão numa National Geographic que, segundo alguns cientistas, até o universo tem fim e tem a forma de um dodecaedro. Isso, longe de ser um triunfo das "coisas terminadas", um triunfo dos mortos, antes mostra a força dos vivos. Explico. Esses mesmos cientistas, se eu li certo, dizem que, se o universo tiver mesmo fim, todas as ondas sonoras produzidas desde sempre estão "emboladas" nas suas paredes, até hoje soando (acho que era por causa do princípio de conservação de energia, mas posso estar falando besteira). Por todas as ondas sonoras eu digo todas mesmo, inclusive as vozes de Jesus Cristo e de Júlio Cesar, o tiro que matou o arqui-duque ferdinando, o som da explosão do krakatoa, o meu primeiro gemido de choro quando eu nasci, um grão de areia friccionando com outro no deserto do Saara e até as teclas desse teclado de computador batendo nesse exato momento. Essas coisas, esses sons, não tem fim nunca, estão lá no fim do universo soando ao mesmo tempo, quem sabe harmonicamente ou talvez como um cluster de piano. Isso é muito louco, e se desautoriza alguns de nós a virem com esse papo de "acabou mas foi bonito", alegra tantos outros que acham que a gente vive não pelo passado, mas pelo estar passando. E daí que todas as coisas estão passando ao mesmo tempo?

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

breve pensamento












"Bem peneirados, "Muito" e "Pouco" renderiam um único disco, melhor resolvido que os dois. Muitas das sobras estão no segundo, com insossas canções do fraco Johansen, "Oh my love, my love" e "Waiting for the sun to shine" (esta em parceria com o intérprete), e a arrastada toada "Saudade", que Moska escreveu com Chico Cesar, e Bethânia (em dueto com Lenine) lançou em 2009 no CD "Tua". Bastava aquela gravação. Como Tom & Vinicius lembraram há cinco décadas, chega de saudade!"

Retirado da resenha que o "globo" fez do disco "muito pouco" do Paulinho Moska. (O resenhista é um sujeito chamado Antônio Carlos Miguel)

A resenha, como de hábito, é muito ruim, e o disco, como de hábito é muito bom. Mas o trabalho medíocre do indivíduo que escreveu a resenha pode ser melhor percebido no final do texto, quando fica claro que ele só falou mal da música "saudade" para poder fazer o trocadalho do carilho com a canção de tom e vinícius. Todos nós estamos carecas de saber o quão irresponsável é a crítica musical no nosso país, mas essa eu ainda não conhecia: definir a opinião sobre uma obra apenas pela qualidade da piadinha que se pode fazer com essa opinião. Dá muita preguiça de argumentar com um texto desses, então eu sugiro que vocês que estejam lendo isso dêem um jeito qualquer de ouvir a música "saudade", que encerra o disco. É linda, do caralho, uma das melhores coisas que eu ouvi ultimamente, e por sí só destrói esse trabalho medíocre desse pobre crítico.

pra se ter uma idéia da gravação de "saudade" que está no disco, aí vai este vídeo, que está bem próximo (com o ônus de não ter a voz linda do chico cesar):

http://www.youtube.com/watch?v=ZWjXc70l3yw

Saudações a esse belo disco duplo, que devia ser duplo mesmo!

ps: quem conseguir, escute o blues "provavelmente você" também, uma música linda com uma segunda voz da porra.
vídeo dela (bem inferior a versão de estúdio, é verdade, principalmente por não ter a tal segunda voz):

http://www.youtube.com/watch?v=z11TWoUBTQI

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Professor Olímpio contra o Horóscopo - Parte 3. "A Máfia".

Jonas, o Astrólogo, agora estava na crista da onda do ó do borogodó por cima da carne seca. A sua nova postura enquanto astrólogo, a de corrupto anti-ético que alterava os horóscopos de todos os dias e de todos os signos conforme o sujeitio pagasse a ele, tinha lhe rendido uma coluna no suplemento de domingo, umas entrevistas na hebe, um curso na Casa do Saber e agora ele já estudava abrir sua própria franquia de iogurte congelado, a yogoastros. Apesar de nunca mais ter consultado um mapa astral, seu prestígio crescera e ele era considerado até por outros astrólogos como um sujeito muito talentoso.
Um dia, ele estava em sua nova cobertura num condomínio chamado Barra UltraBlastResortBeach, ele recebeu um telefonema que o deixou nervoso. Era uma cliente assídua sua, uma socialite daquelas turbinadas que estava sempre pedindo que ele tentasse dar uma recalchutada nas previsões pro seu signo, Peixes, numa de deixar Peixes menos peixe morto. Ele já atendeu risonho, depois de engolir seu martini:
-Salve, minha Loira! Achei que vocÊ ainda tava lá nas ilhas Gregas... o que vai ser essa semana? "Peixes vai estar propenso a prosperar financeiramente" ou "sua lua em júpiter vai te proporcionar uma reviravolta amorosa"?
-Ah, Jonas... Snif... Nem me fale... É que, lá nas ilhas gregas, eu terminei com o Sílvio. Sabe, o Sílvio ministro?
-Aquele envolvido naquele escândalo?
-Ele mesmo.
-Então eu vou botar assim: "Peixes hoje vai sair de qualquer depressão em que tenha entrado e vai brilhar..." Daí vocÊ vai e arrasa lá na Baronette, mas antes deposita a quantia de sempre na minha conta, e...
-Você não entendeu, Jonas. Não é isso que eu quero. O Sívlio respeita muito o seu horóscopo... E eu quero que vocÊ ACABE com o Sílvio. Combinado?
-Ih, minha filha, pra falar mal o preço é acrescido de cinquenta por cento.
-Eu pago, eu pago.
-E qual é o signo do infeliz, querida?
-Capricórnio.

Opa, Capricórnio não.Aquilo era um problema. Desde que iniciara a sua "máfia", a única coisa que tinha permanecido exatamente igual era que ele falara sempre muito bem de Capricórnio. Coisa de suas relações com o seu primeiro cliente e padrinho, o Doutor Olímpio.

-Eu não posso, meu bem, capricórnio está fora de questão.
-Eu triplico o que eu ia te pagar.
-Minha Loira...
-Eu pago dez vezes o preço da tabela. Eu só quero foder com a vida do Silvio.
Era muito dinheiro. Ele, que tinha sido pobre e vivido numa casa cheirando a mijo a vida inteira, com esse dinheiro poderia se aposentar e abandonar a máfia, se dedicar a outros hobbies, torrar tudo num cruzeiro, sei lá. E além do mais, de uns tempos pra cá o Seu Olímpio andava meio sumido, só sabia que o velho não tinha morrido por que o dinheirinho dele continuava pingando todo mês na sua conta. Vai ver o velho não repararia, ele escreveria uma semana de coisas escabrosas sobre capricórnio e pronto, voltava ao normal.

-Combinado, minha loira.
-Você é um amor, Jonaszinho.
-Amor é o som do seu dinheirinho pingando, coração.

E Jonas, animado com o pagamento, fez um senhor trabalho, empolgado com o seu próprio talento. Muitos Capricornianos se suicidaram, tantas foram as desgraças que Jonas previu. O tal do Sílvio, transtornado com os escritos de Jonas, se embananou com os depoimentos que tinha que dar pra CPI do não sei o que e acabou preso por quebra de decoro parlamentar. Jonas estava rindo de orelha a orelha, checando na internet a sua conta bancária, inchada como um boi pronto pro abate. E era exatamente um boi pronto pro abate que o Jonas era, mas sem saber. Estava de noite. Uma noite sem nuvens naquela cobertura de frente pro mar.

E foi então que trovejou. MUITO alto.

- Você vai aprender a não brincar comigo, seu moleque.
-Caralho! Quem tá aí?

A primeira voz que falou vinha do alto, e era muito grave.A segunda era a de Jonas mesmo.

-Zeus está aqui. Zeus está em todo lugar. E aqui ele se manifesta contra quem achou que podia brincar com o seu culto.

Todas as luzes da casa de repente se apagaram.

CONCLUI NO PRÓXIMO EPISÓDIO!

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Uma intermitência do Morto

Escrito no calor da notícia da morte do Mestre José Saramago.


Não creio que tenhas morrido, depois de tornar-se íntimo da morte ao ponto de descrever-lhe as intermitências e as intimidades, Mas o fiz por que é o que se faz, e digo ainda que o fiz como quem pratica uma ação e não como aquele que está parado e a quem algo se sucede, Mas todos acreditávamos que a tivesse superado, que tivesse vencido a morte invencivel, Nunca foi minha intenção superar um que ou um quem, Críamos, pelo menos, que conhececes a morte bem o bastante para escapar, Não afirmo o contrário, E no entanto estás morto, Mas contigo aqui travo este diálogo, e estás vivo, É que apenas escrevo à tua maneira, imitando canhestramente teu famoso e inconfundivel modo de diálogo, E deste modo manifesto-me como sobrevivente da morte, sobrevivo assim nas letras que são a minha obra, ainda que não possa se dizer que estas sejam própriamente as minhas letras, Ainda uma vez nos ensina uma lição, Nada ensina aquele que escreve, antes faz o leitor relembrar algo que já traz em sí de íntimo, Como queira, Não acho que eu ainda alguma coisa queira, Já nada queres, Minto, quero, O que queres, Quero o descanso à beira do mar depois de ter finalmente zarpado da minha querida ilha de Lanzarote para esta outra em que estou agora, a um só tempo a mais desconhecida e uma velha amiga, A morte, A morte.




"Pela idade, há muito tempo que sou um velho. Mas só pela idade. Trabalho com a mesma vontade de sempre, a imaginação ainda não desertou de mim, compreendo melhor o mundo em que vivo, sou consciente do valor da vida, e, quanto à morte, ela chegará no seu dia, nem antes nem depois. Quem morre aos 20 anos, morre na sua velhice e não o sabia."


JOSÉ SARAMAGO

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Professor Olímpio contra o Horóscopo - Parte 2. "O Astrólogo"

Continuação da saga do professor Olímpio versus o Horóscopo. Afirmo aqui que esta é uma obra de ficção que não necessariamente expressa o pensamento do autor, mas que pode fazê-lo quando este bem (des) entender. Para ler o princípio, ver o post embaixo deste aqui. Aí vai:

Era princípio de noite e a casa onde morava o astrólogo, que se chamava Jonas, fedia a xixi de gato. O Astrólogo, que se chamava Jonas, suspirou. Releu o que havia escrito e continuou sem conseguir se convencer de que estava bom.

"Capricórnio. Hoje seu dia será absolutamente maravilhoso. Cheio de margaridas em flor. Todos os seus planos darão certo. Você estará especialmente sagaz, bonito, bem humorado e potente sexualmente. A semana: Não se preocupe, tudo dará certo. Se quiser, pode caçoar das pessoas de outros signos".

Já tinha um mês que era assim; O tal do velho ligava pra ele e dizia mais ou menos o que ele tinha que escrever no signo de capricórnio. Só coisas boas. Ele ia lá, escrevia, e aparecia um monte de dinheiro na sua conta bancária. Ele não fazia perguntas, tinha uma mãe idosa e com um problema urinário sério (que aliás era o que deixava toda a casa pequena onde os dois moravam com aquele cheiro horrivel), e a grana era mais que bem vinda. Em todo caso constantemente perguntava aos astros, em quem ele possuia sincera e ferrenha crença, o que poderia mover o velho a agir daquela maneira. As respostas destes não eram nunca conclusivas.

O astrólogo, que se chamava Jonas, tornou a suspirar. Desde criança ele sentia que possuia uma afinidade com as nebulosas forças astrais, e consumiu sempre vasta literatura sobre o assunto. Quando começou a fazer mapas astrais, fez alguns de graça para amigos mais chegados e todos (inclusive ele) ficaram surpresos quando viram que seu trabalho possuia surpreendente exatidão. Todos os seus amigos, que ele previra ricos e felizes, de fato o acabaram sendo. O único mapa astral que ele errara na vida fora, pasmen!, o dele próprio. O mapa que fizera pra si indicava uma vida adulta confortavel, morando num lugar alto, perto da praia e com uma grande quantia de água. Desde esse momento preparado para uma cobertura em Ipanema, o astrólogo, que se chamava Jonas, se surpreendeu quando acabou numa ladeira lá pros lados da praia do Caju (imprópria pra banho) com um desagradavel pântano no terrendo baldio ao lado. Como consolo para sí próprio ele dizia que não errara nos indicativos astrais, e sim na interpretação destes.

Estava perdido nesses devaneios quando o telefone tocou.

-Alô?
-Sou eu, o Professor Olímpio.
-Boa noite, professor.
-Pra quem? Tô todo fudido de dor nas costas.
-Tudo bem, professor. A lua está em peixes,isso vai curar todas as suas dores físicas.
-Vai a merda. Eu não acredito nessas coisas. Mas tenho uma sobrinha que tá em dúvida se casa com um rapaz ou não. E o rapaz é um imbecil, faz faculdade de Letras. Faz o favor de botar aí no signo de Virgem, que é o dela, para "Não acreditar em babacas metidos a poetas que venham tentar de comer e roubar a sua grana". Ela acredita muito nessas baboseiras.
- Esse não é o nosso trato! Eu combinei de alterar só o signo de capricórnio! Meu trabalho é sério, não posso ficar alterando as coisas só por que o senhor quer, isso aqui não é casa da mãe Joana.
-Por falar nisso, como é que vai a mijona da sua mãe?
-Olha aqui, seu Olímpio, eu tenho leitores, tehnho uma responsabilidade para com eles...
-Cê tem conseguido pagar direitinho o remédio dela agora?
-As pessoas no jornal podem começar a estranhar...

Do outro lado da linha, o Professor Olímpio suspirou. Com alguma imaginação conseguia até sentir o horrível cheiro de mijo.

-Bota o que eu te falei. Vai pingar mais dinheiro na sua conta esse mês.
-Eu não sou uma prostituta!
-Alías, tava pensando o seguinte. Uma das coisas que eu mais odeio no signo de capricórnio é esse fato dele ser meio cabra meio peixe. Que porra é essa? Isso é esculhambação de vocês astrólogos. Faz favor de mudar o desenho dele pra uma coisa mais bonitinha, combinado? Se quer minha sugestão, o desenho pode ser o de um labrador. É que eu tinha um labrador quando eu era criança.
-Seu... Seu Olímpio, isso é uma abuso...
-Me amarro num labrador.

Desanimado, o astrólogo, que se chamava Jonas, conseguiu demover o Professor Olímpio da idéia do Labrador, explicando aque aquele desenho da cabra meio peixe era uma imagem convencionada desde muito tempo pra mudar abruptamente. Mas teve que concordar em colocar uma inserção sobre não confiar em falsos amantes no signo de virgem.
Quando desligou o telefone e foi mais uma vez dar o remédio para sua infeliz mãe, o astrólogo, que se chamava Jonas, não imaginava o que estava para acontecer na sua vida.

Foi na semana seguinte que começou a mudança. O telefone tocou e ele achou que fosse Olímpio outra vez

-Professor?
-Que professor, rapaz? Você é o astrólogo do "Berro do Povo"?

Ele pensou que havia sido descoberto, gelou. Mas foi honesto.

-S...Sim.
-O homem que eu estava procurando! Eu sou o reitor da Universidade Federal, e um professor daqui andou falando muito de você. Eu gostaria de pedir um favor. O senhor é discreto, não? A minha esposa está entrando na menopausa, sabe como é, estou com medo dela perder o fogo dela, mas ela respeita muito o horóscopo. Quero que durante os próximos doze meses você coloque coisas luxuriantes no signo de peixes, ok? Pago adiantado. E muito bem.

O astrólogo, que se chamava Jonas, fez silêncio do outro lado da linha. Decidindo, talvez, se os pontinhos que brilhavam incessantemente na sua cabeça eram estrelas ou moedas.

CONTINUA NO PRÓXIMO EPISÓDIO

sábado, 29 de maio de 2010

Professor Olímpio contra o Horóscopo - PARTE 1. "O Jornal"

A pedidos, mais uma (ou mais meia, como se verá) do Professor Olímpio. Algo me diz que isso é o começo de uma saga.
Professor Olímpio dá aula de Topicos Elementares da Introdução á Teoria Ontológica na faculdade de Filosofia de uma importante universidade federal. Só que seu casamento com a filosofia já foram suas segundas núpcias, um amor de maturidade destinado a sanar suas dúvidas de velho, quem sabe uma conjuge destinada a cuidar dele no princípio de sua senilidade: Olímpio e a Filosofia nunca foram um par fogoso. Sua verdadeira paixão de juventude, aquela responsável por tantas descargas de adrenalina, ilusões e decepções, foi mesmo a política.
Olímpio, possuidor de farta coleção de quepes, blusas de botão e calças xadrez, além de cigarros hollywood, fora na mocidade um veemente militante da esquerda, e, homem estudioso que sempe foi, votou em branco em todas as eleições, desde aquelas para o centro acadêmico da faculdade até o pleito para presidente. Na velhice tornou-se moderado, rancoroso e com aquele amargor característico dos que viram quase tudo na vida e gostaram, vá lá, de uma ou duas coisas no máximo. Um dos poucos hábitos da mocidade que preservou no seu ocaso filosófico foi a ojeriza aos jornais de grande circulação("manipuladores! vendidos!"): Olímpio só lê "O Berro do Povo", um jornal desses que quando torce sai sangue mas que, há muitos anos, foi um quase importante jornal da esquerda.
Olímpio parecia não ter dado por essa mudança de linhe editorial até o dia em que seus olhos bateram numa coluna que até o dia anterior não era publicada: um horóscopo. Ficou sinceramente decepcionado com a novidade, pois como todo bom acadêmico considerava a astrologia uma besteira sem fundamento algum. Sentiu saudades do tempo em que aquele lado direito da terceira pagina era ocupado pelo colunista Bílio Bastos, articulista que depois pegara em armas no interior do Tocantins. Naquele instante, diante de seu farto café da manhã (ver conto anterior do Olímpio), Olímpio revisitou todo seu ódio diante do horóscopo, ódio esse que passa sim pelo cientificismo barato e pelo sectarismo de suas posições mas, como é sempre o caso de Olímpio, tem raízes muito mais profundas.
Olímpio, é preciso dizer, é do signo de Capricórnio. O leitor é desse signo ou conhece alguem que o seja? Capricórnio é o signo inventado, provavelmente, quando os gregos conseguiram onze signos excelentes, onze histórias zodiacais bacanérrimas e quiseram completar com doze... "pra ficar numero par". Sei lá. Já era fim de noite lá na grécia e os gregos tinham tomado muito vinho quando um babaca histórico soltou "Pô, bora fazer um bicho meio cabra meio peixe e fazer o cara que nasce nesse signo não ter nada de legal na personalidade dele". Todo mundo deve ter rido e topado. Malditos bêbados. Geraram pessoas como Olímpio, que sempre foi um amargurado na vida por ter amigos com signos legais como "leão" ou "escorpião", ou até o insossamente fofinho "peixes" e não poder partilhar da alegria deles. O capricórnio é o que? Pode perguntar pra um astrólogo.
-O Capricórnio é ambicioso com uma certa ganância, nada vai impedi-lo de alcançar seus objetivos, geralmente egoístas. Ele é racional, recluso (eufemismo para mal-humorado) e dissimulado.
Ah, legal, né? Que estimulante essa descrição. Imagine quantas mães devem ter querido "segurar" seus filhinhos na barriga para protege-los de nascer no famigerado mês de Janeiro, que faria deles capricornianos.
A mãe de Olímpio não teve esse cuidado e o pobre coitado nasceu justamente nos meados do primeiro mês do ano.
Pois Olímpio engoliu em seco a sua raiva e continuou comprando o "Berro do Povo", decido a ignorar o horóscopo e principalmente as referências ao seu signo. Claro que em poucos dias sua neurose o dominou e ele bateu o olho na parte proibida do jornal. Lá estava:


Capricórnio: Muito cuidado com a sua personalidade. Dome seus impulsos e evite magoar as pessoas com seus gestos descuidados e egoístas. Época ruim para relacionamentos amorosos e profissionais.

Olímpio ficou com uma raiva que há muito não o dominava (desde quando uma babá passsara com um carrinho de bebê por cima do seu pé, pra ser mais exato). Olímpio imediatamente catou seu quepe, seus cigarros e de pijama mesmo foi até a redação do jornal, decidido a tirar a limpo anos e anos daquela maldita opressão zodiacal. Pegou um ônibus morto de raiva, desceu dele quase espumando, entrou na redação do "Berro do Povo" assustando a pobre da recepcionista e berrou:

-Eu quero falar com a porra do astrólogo que faz aquela merda daquele horóscopo, caralho! E é melhor ele vir sozinho!

Por algum tipo dessas coincidências que só os astros explicam, o pobre do astrólogo estava exatamente deixando a redação naquele instante para ir almoçar, e ouviu os berros de Olímpio.

-Algum problema, senhor, eu sou o astrólogo do jornal. Alguma dúvida te atormenta, os astros podem ajudar em alguma coisa?

Olímpio olhou para ele. Seus olhos saltaram um pouco pra fora das órbitas e há testemunhas que afirmem que ele chegou a babar. Mas se o fez, se realmente deixou-se dominar assim pela raiva, num instante se conteve. Algo o fez racionalizar, provavelmente seu espírito essêncialmente classudo de professor universitário. Finalmente conseguiu falar.

-Quanto você quer? Pode falar, que eu tenho dinheiro. Quanto você quer pra começar a publicar coisas boas sobre capricórnio? Quanto você quer para reabilitar a imagem do meu signo?


CONTINUA NO PRÓXIMO EPISÓDIO

quarta-feira, 10 de março de 2010

Bachiana n°5 ou A história de um orgasmo.

Saiu de casa com o MP3 ligado, a nuca brincando de escorrega com a última gota que o cabelo guardara do banho. Saiu pela cidade, saiu de casa toda de branco, saiu pra academia. As ruas arborizadas do seu bairro de rica e ela travavam um diálogo mudo e sem fim, falando a língua secreta da beleza, das belezas, de tudo aquilo que é incompreensivel por ser luz. O dia era um daqueles nublados entre aspas pois que todo coberto de nuvens, mas de nuvens tão finas que eram filtro de uma luminosidade prateada, seca, elétrica. Ela indo pra academia.
No caminho, pensou. Pensou em dinheiro, em gente, em aparelhos eletrônicos, em notícias de jornal, em bebídas alcoólicas, em futuras viagens marítimas ao exterior, na peça ruim em cartaz, no trabalho, no marido, na empregada, na bancada de mármore de sua cozinha, num circo que assistira quando criança, em números de celular, em números de loteria, em números, em certo poema sentimental de uma autora do interior, na receita da revista, em roupas de baixo mais confortaveis que as que estava usando, em meninos de rua.
Ela pensou a maior parte do tempo em certo sabor novo de sorvete que ainda não provara. Melão com pêra. Os passantes que tentavam apreender toda a sua beleza esbarravam justamente nisso. Que uma parte da beleza dela vinha desse melão com pêra que só se advinhava dentro de sua cabeça pensante. Que era o segredo do seu tornozelo úmido ganhando a extensão da calçada da avenida. Eles ficavam só naquela roupa branca, naquela sugestão de transparência que era em sí já o melhor dos sabores de sorvete, mas não era tudo. Eles se davam por satisfeitos, os passantes. Ela, ela só pensava nessas coisas todas.
Até que a música do MP3 mudou, e mudou radicalmente. Não mais o pop, a salsa, o tango rock blues samba axé funk ou os as cantigas de roda. Os seus fones de ouvido atacaram de "Bachiana n°5", aquela mais famosa do Villa-Lobos. (taaaan, tan tan tan tan tan tan taaan tarantantan) E ela descobriu o mundo outra vez.Descobriu naquela coisa que via uma dança, uma ondulação épica que só não tomava o mundo por que é como se desde o príncipio já o fosse, mas ela só agora descobrira. Descobriu que o mundo em sí é apenas a representação viusal da bachiana n° 5, como um grande video-clip. Ela viu tudo dançar.

Os acionistas, as administradoras, os bombeiros, as babás, os canalhas, as crioulas, os dementes, as dançarinas, os engraxates, as estivadoras, os feirantes, as filiólogas, os grumetes, as garis, os homossexuais, as homossexuais, os idiotas, as investidoras, os joões-ninguem, as jogadoras de bridge, os loucos, as letristas de canção popular, os marinheiros, as médicas, os negros, as nadadoras, os obreiros, as osteopatas, os professores, as prostitutas, os quase-nadas, as quase-tudo, os repentistas, as roupeiras, os sacerdotes, as sociólogas, os tintureiros, as trocadoras, os urologistas, as umbandistas, os visionários, as velhas, os xiitas, as xerifes, os zagueiros, as zebras.

Tudo dançou pra seus ouvidos, mas dançou com a suavidade de quem já estava dançando antes, sem ser percebido.

quinta-feira, 4 de março de 2010

O PRIMEIRO DIA (baseado numa conversa com o professor Hugo Pinheiro)

Acordou com o rádio despertador tocando um velho sucesso. Sem abrir o olho, levou o dedo até o botão e desligou o aparelho, exatamente um instante antes da música durar o bastante para acordar sua mulher, que dormia encolhida no outro lado da cama. Só então levantou-se com o esforço característiico dos cheios de sono e colocou, sentando-se na cama, os pés descalços no chão do seu quarto escuro. Uma das únicas luzes, o letreiro digital do despertador informava que eram 6:20 da manhã. Ele se levantou, já desabotoando o pijama, e foi em direção ao banheiro, arrastando os pés.

Em segundos a luz do banheiro e a água do chuveiro inundaram seu corpo nu, permitindo que se visse que ele era um homem com sinais inequívocos de estar entrando na velhice. Seus olhos abertos miravam desinteressadamente os azulejos do banheiro, de cor bege, enquanto suas mãos faziam cega e acostumadamente o trabalho de pegar o sabonete e ensaboar-se, pegar o shampoo e passar nos cabelos grisalhos e ralos e etc. No final de tudo, ele desligou o chuveiro e pescou com a mão a toalha que o esperava fora do box. Secou-se. Em outros tempos, faria com desenvoltura a manobra de apoiar-se num pé só para poder secar o outro, coloca-lo fora do box, apoiar-se nele e secar o que ainda restara molhado. Agora saiu andando pelo banheiro chapinhando o chão com seus pés molhados e sentou-se na privada para seca-los.

Ao postar-se em frente ao espelho para escovar os dentes, deteve-se um instante para contemplar seu rosto, como fazemos quase todos nós diante do próprio reflexo. Os pensamentos que lhe passaram foram, como são os pensamentos, pouco sucetíveis a descrições, mas certamente envolviam a velhice que lhe chegava. O momento passou e foi sucedido pelo outro, absolutamente sem anormalidades, de escovar os dentes. A mão que não se ocupava dessa tarefa segurava a toalha precariamente enrolada em torno da sua cintura.

Ao sair do banheiro não se preocupou em apagar a luz, pois aquele facho contribuia para que a mulher acordasse, ela que já se contorcia de leve enquanto o rádio relógio dava as notícias do trânsito matinal, marcando em seu letreiro o horário de 6:35. Andou algo ruidosamente até o seu armário e já começou a escolher, antes de abri-lo, as roupas que iria usar.

A mesa do café o encontrou ainda de peito nu, era esse o cuidado que tinha com suas camisas, para não mancha-las de mel ou leite. Já estava, no entanto, com suas calças de cor cinza, que mesmo velhas preservavam certa aura respeitavel graças aos tratos extremosos que recebia do dono, ao usa-la, e da esposa do dono, ao lava-la. Ele comeu um pão com manteiga, tomou um copo de leite sem café, chupou uma laranja e levantou-se. Saiu andando em direção ao seu quarto e sua camisa. O jornal que estava do outro lado da porta da rua permaneceu intocado. O horário do trabalho não lhe permitia leituras matinais, apenas no final do dia.

Saiu de casa, e quem o visse saindo não advinharia em sua boca o recente beijo estalado dado pela esposa. O peso da pasta que carregava quase não era sentido pelo braço, que ja se acostumara absolutamente com ela. O velho retângulo de couro e seu conteúdo eram como que uma continuação do seu corpo. Checou no outro pulso o seu relógio, para conferir se eram realmente 6:55. Eram. Seguiu andando, subindo a calçada que aos poucos se tornava mais visivel conforme o sol subia e a iluminava. Sua boca começou a assoviar a melodia com a qual o rádio despertador o acordara. Um velho sucesso do seu tempo.

Sem que ele visse, embora o soubesse, em sua casa o rádio despertador marcou 7:00 quando ele finalmente parou de andar e chegou no ponto de ônibus. Parou sem se sentar, muito embora um rapaz uns tinra anos mais novo, vestido com roupas parecidas com as suas e segurando um pasta parecida com a sua, tivesse apressadamente se levantado para lhe ceder o lugar.

-O meu já está vindo - Disse apenas. Nem um minuto depois ele e o rapaz viram surgindo no horizonte o ônibus que, pela numeração, era o que ele pegava todos os dias, desde muitos anos, para ir ao trabalho. Sem que ele fizesse sinal o motorista parou, saudou-o com um sorriso e abriu a porta do ônibus. Ele não moveu um passo. Pela primeira vez seu olhar perdeu o ar mortiço que tinha desde o momento que acordara de manhã. Para a absoluta incredulidade do motorista e do jovem ao seu lado, ele disse, quase gargalhando:

-Hoje eu não vou!.

Hoje ele não iria. Não dirgiu mais a palavra ao motorista nem ao rapaz. Tampouco tornou a vê-los em qualquer momento de sua vida. Apenas virou seu corpo cento e oitenta graus e voltou a caminhar em direção de casa, para ler seu jornal e aproveitar o primeiro dia de sua aposentadoria.

sábado, 20 de fevereiro de 2010

Desabafo.

Está no "globo de hoje" que vão demolir um teatro japonês de 400 anos, que ainda hoje apresenta peças tradicionais japonesas e é popular e concorrido. No lugar dele, é claro, vão erguer um arranha-céu.
A primeira coisa que me chama a atenção na notícia é a capacidade de pessoas que este velho teatro comporta: 2000 indivíduos sentados. DUAS MIL PESSOAS. Pensem vocês nos teatros que temos aqui no rio de janeiro, quantos chegam a comportar a metade disso? Quantos, dentre esses poucos mastodontes que temos, lotam?
Pesquiso um pouco mais para tentar entender o por que da popularidade deste teatro no japão (antes de tentar entender o fato muito mais complexo que é ademolição de um estabelecimento como esse) e leio um pouco sobre o estilo de peça encenado lá. São peças quase dançadas, cheias de "convenções" visuais que permitem a platéia entender o que se passa, como se houvesse um alfabeto de códigos sub-entendido entre palco e platéia. Os enredos são simples e repetitivos e os figurinos são suntuosos e coloridos. A experiência teatral do japonês é em tudo diversa da nossa ocidental (atual) e por isso mesmo dificil de compreender para nós. Para eles, uma peça é um ritual, não lhes é importante ser surpreendido no enredo, a "onda" é entrar num espaço com outras 1999 pessoas mais os atores e dar vida a uma realidade diversa à nossa. Além disso há a questão do tempo. Como para os japoneses há algo de religioso no teatro, eles não se importam em romper com o tempo corrido da tókio cosmopolita (o tempo moderno do instantâneo) e passam até NOVE horas dentro do teatro, assistindo duas peças com, cada uma, quatro horas e meia de duração. Como acontecia na tragédias gregas, com a diferença que lá os teatros chegavam a comportar a quantia de 56.000 pessoas.
Percebo que a tendencia ocidental de criar uma dramaturgia de peripércias e dramas pessoais se dá no mesmo momento em que os teatros começam a se tornar salas cada vez mais irritantemente menores, chegando ao insuportavel ponto que vivemos hoje, em que vinte ou vinte cinco intelectuais metidos a besta vão ao teatro ouvir a verborragia intelectual de um outro intelectual metido a besta, com a diferença que este último está todo de preto. No lugar do ritual, a "reflexão". No lugar da vivência, o "distanciamento". E a questão do tempo, também é diferente. Na medida em que convencionou-se que um filme deveria durar entre uma hora e meia e duas horas e quinze, alguém decidiu que as peças teriam que seguir o mesmo rumo, já que mais que isso torna o teatro "pouco palatavel". Arruinou-se o ritual, criou-se um bem de consumo vendável, mastigável, engolível e excretável.
Pois agora querem, lá no japão, demolir o Kabui-za, esse teatro imenso e bacana, reduto do espírito dionisíaco. Os mega-empresários envolvidos argumentam que dentro dos arranha-céus háverão outros teatros, e são indiferentes aos apelos dos verdadeiros entendidos na arte, que dizem que é impossivel realizar a técnica do Kabuki em um palco que não tenha sido preparado para tal, e que esse em específico é o melhor, maior e mais antigo dentre todos.
Isso me faz lembrar do teatro casagrande que, na década de setenta, era reduto de todos aqueles que não concordavam com o regime ditatorial que censurava as manifestações artísticas que ocorriam no brasil. Isso deu ao teatro um "rosto", fazendo com que ali fossem encenadas peças de protesto, peças esteticamente inovadoras e tornando-o também a "casa grande" de diversos debates sobre temas políticos artísticos e sociais. Trinta anos depois um shopping botou tudo isso abaixo e construiu um outro teatro lá, intieiramente novo mas mantendo o nome. Hoje, o teatro OI Casagrande é referência no Rio de Janeiro em cópias insossas dos musicais da broadway e a "casa' ficou pequena para caber a subversão e as revoluções estéticas.
Tenho medo de esse ser o destino do Kabuki-za. Enqunato hoje em dia as apresentações lá ocorrem com as luzes acesas e o público grita durante a peça inteira, em frenesi com as atuações de seus atores preferidos, todos de familias tradiocionalmente teatrais e profundamente integrados a comunidade, receio daqui a alguns anos ter notícias de que as platéias estão escuras e silenciosas como as nossas, assistindo a algum drama subjetivo qualquer, provavelmente com trilha sonora da broadway.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Burguês que o pariu

Esses dias me chamaram de burgês. Esses dias me disseram, pra ser mais exato, que eu vinha de uma família burguesa, e usaram como argumento o fato de eu preferir morar numa casa confortável do que viajar. Embora desde o princípio a coisa toda tenha me parecido descabida, fui tomado por um sentimento de desconforto que me levou a refletir (não sem alguma investigação) sobre essa palavra "burguesia" e a forma como seu sentido mudou ao longo da história. Não escrevi esse texto movido por um sentimento de rancor, que fique claro, pois a situação que o propiciou se deu em um clima de grande camaradagem, mas pelo meu inconformismo em relação ao fato de uma palavra ter um deslize de sentido mais veloz que nossa capacidade de refletir sobre ele.
Do começo.
Segundo "El diccionario de la real academia española" (o dicionário mais próximo de mim no momento) a palavra burgo vem do alemão "burg", e indica as fortalezas medievais onde aconteciam feiras, durante o período de reimplantação do dinheiro. Burgueses eram os que iam na feira vender algo. Ao longo da história o significado foi se expandindo até abranger dentro do conceito de "burguês" todo aquele que possuia e explorava alguma forma de capital que fosse além de sua capacidade de trabalho. Só pra chegar até aí eu creio que já estejamos lá pelo século XVII ou XVIII.
Em meados do século XIX, quando aconteceram grandes revoluções trabalhistas (graças a uma imensa revolução tecnológica), surgiu o socialismo, forma de pensar que culminava com a a ascenção do proletariado ao poder. Como nesta época o poder estava com os burgueses, estes foram encarados como O INIMIGO, e a palavra finalmente adquiriu a conotação negativa que possui até hoje. É importante que não percamos de vista, no entanto, que ela continuava classificando o mesmo grupo de indivíduos, os donos e exploradores do capital.
As décadas se sucederam, o século XX nasceu e se desenvolveu, e em todas as partes do mundo em que o socialismo não triunfou surgiram outras formas de contra cultura visando defrontar-se com o sistema capitalista, não tanto pelo viés econômico, mas principalmente por uma abordagem relativa a mudança de hábitos e costumes. Para esses grupos (ex.: os hippies) era preciso principalmente mudar o cotidiano, e então eles se aproriaram da nomenclatura socialista para chamar de burguês todo aquele que fosse de alguma forma conservador, ainda que não fosse dono de seu próprio capital e muito menos vendesse qualquer coisa na feira.
Mais tempo se passou, outra revolução tecnológica aconteceu, e os parâmetros mudaram. Grandes grupos de contra-cultura deixaram de existir por que a própria cultura hegemônica se fragmentou com o advento da internet e o reinado da informação sucedendo o reinado do dinheiro. Tornou-se praticamente impossivel apontar algo efetivamente de vanguarda, pois mesmo os hábitos antes considerados contra-culturais foram absolvidos (e absorvidos) pela grande massa amorfa que caracteriza os costumes dos dias de hoje. A palavra "burguesia", então, tornou-se vazia de sentido e herdou do século XIX apenas uma vaga carga pejorativa desassociada de qualquer caráter crítico, tornou-se um mero xingamento com o qual se pode atacar alguém. É ridiculo que se entenda por mais ou menos burguês alguém que prefira viagens a conforto ou vice versa, quando o que acontece é que a palavra já é apenas a réplica sonora de uma outra mais antiga, essa sim com um significado razoavelmente definivel, ainda que distendível e modulavel como qualquer outro. Chamamos alguém de burguês da mesma forma que gritamos "puta que pariu!" sem querer passar a idéia de uma prostituta parindo, interessados na mera "força" ofensiva que a expressão adquiriu.
Concluida a minha reflexão (eufemismo para masturbação intelectual) faço um pequeno aparte autobiográfico para dizer que não posso ser chamado de burguês nem no sentido primitivo do termo, pois sou assalariado e filho de funcionários públicos, e não possuo nenhum tipo de capital, nem mesmo ações no mercado. Obrigado a quem tiver lido, peço que quem tenha saco comente e prometo para breve retornar com os poemas, que eu sei que são melhores do que isso aí que eu escrevi agora.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

O Contador de Histórias

Hoje é dia de falar de um artista único, que conscientemente ou não ocupa um lugar no imaginário de todos nós. Ele, ao contrário de muitos outros grandes da sua geração, foi na contra-mão das tendências e decidiu buscar a ADEQUAÇÃO ABSOLUTA ao meio comercial, decidiu fazer-se entender de forma quase instintiva por seu público e foi recompensado entrando para sempre no imaginário mundial como o artista que captou exatamente o espírito do país mais poderoso do mundo. Ele conseguiu desenvolver uma linguagem inconfundivel sem precisar se valer de instalações, materiais inusitados e artificialismos: suas únicas armas eram nossos velhos conhecidos: pincel, tinta, lápis e tela... E sua plataforma para o mundo era a capa de uma revista de imensa circulação nos Estados Unidos da primeira metade do século. Falo aqui, claro, do fantástico homenageado do Google de hoje, o pintor Norman Rockwell.

Rockwell é o artista americano por excelência, se pensarmos tanto no seu conteúdo quanto em sua forma. Sendo assustadoramente eficiente na técnica realista de retratar com fidelidade corpos e cenários, atribuia a seus personagens rostos infantis que tornavam uma não-identificação com o público quase impossivel. Preciso e palatavel, como a boa arte americana. Como um George Gershwin (que bebeu nas águas do blues e do jazz para temperar sua música "erudita") Rockwell indubitavelmente pesquisou, para realizar seu trabalho, a obra dessa mídia de massa tão desvalorizada na época que eram os quadrinhos. Isso enriqueceu tanto a arte sequencial, que certamente se valorizou e pode desembocar-se na figura de um Will Eisner (aliás outro mestre que merece um post) quanto o próprio pintor, que descobriu que o realismo puro, por mais que seja agradavel a olhos acadêmicos, não poderia prosperar no século XX que se iniciava, pois não tinha apelo popular. E Rockwell não aprendeu só isso. Algumas de suas obras SÃO inegavelmente arte sequencial. Esta, por exemplo: www.bromattsblog.files.wordpress.com/2006/10/gossip_norman_rockwell1.jpg



Mas não adianta que eu tente puxar a sardinha de Rockwell para a minha mídia predileta que é a da história em quadrinhos. Rockwell não precisa disso, pois sua maior virtude, aquilo que o torna único e grandioso, é a capacidade de contar histórias em apenas UM único quadrão. Prato cheio para estudos semiológicos, ele é capaz de colocar em sua pintura elementos que nos induzem a não apenas supor, mas imaginar fotograficamente a história que aconteceu para culminar naquele ponto. Na verdade, o que vemos é apenas o fim de alguma trama em que talvez a parte mais interessante já tenha passado, e é revivida em nossa cabeça a cada vez que "lemos" o quadro. Na "Homecoming Marine", por exemplo, nós a principio apenas vemos um soldado conversando com alguns mecânicos. Nada demais, a princípio. Um olhar mais atento revelará uma notícia de jornal pregada na parede que fala de um certo Joe, mecânico que virou herói de guerra, e esse Joe é ninguem menos do que o soldado que estamos vendo. Ou seja, na verdade a cena que estamos presenciando é um reencontro de amigos. A bandeira que o soldado segura é uma bandeira oriental, o que nos permite adinha também onde foi essa guerra. Finalmente, dentro do campo da subjetividade, podemos entender pela expressão de cada rosto retratado o teor da convesa que se está tendo. Uma crônica, portanto, reduzida ao seu essêncial, o máximo de concentração narrativa possível... obra de gênio. E ainda por cima tratando de um tema de interesse nacional, uma cena quotidiana que deveria estar se repitindo por todo os Estados Unidos naquele final de guerra da Coréia. Poderia citar dezenas de outras capas feitas pelo artista que possuem a mesma capacidade mágica de concentrar toda uma narrativa compreensivel, coesa (e por vezes engraçada, fabulística, crítica, moralizante...) em um único instante congelado de tempo, mas é mais prático e honesto que eu coloque aqui o link para o seu site oficial, onde há varias pinturas e gravuras suas disponiveis. www.rockwelllicensing.com/nr_gallery.html

Desde a prosa inovadora de Edgar Allan Poe até a técnica milimétrica dos roteiristas de Hollywood, os americanos são mestres inimitaveis na arte enganosamente simples de NARRAR. São, como fazem questão de mostrar no filme do americano símbolo que é Forrest Gump, os "Contadores de Histórias" por excelência. E, nessa galeria, Norman Rockwell ocupa lugar de destaque, Para ser apreciado como pintor e lido como o grande cronista que foi.