Lá onde eu nasci tudo era muito isso e aquilo, tal e qual. Da janela da sala se viam as janelas das salas dos prédios em frente, dos quartos e da cozinha via-se a favela do Cantagalo e, estranhamente, do basculante do banheiro você tinha uma vista perfeitamente emoldurada do morro Dois Irmãos sobre o Oceano Atlântico, o que no verão dava ao usuário do vaso sanitário um pôr-do-sol pelo qual muitos pagariam milhões. Lá onde eu nasci era uma Ipanema cheia de pássaros e sujeira, donde não faltavam pássaros sujos: Gaivotas sujas em “vês” assimétricos sobre o mar, galinhas sujas ciscando na favela e, os piores de todos, uma raça de pombos mutantes sujíssimos e tristíssimos, que na bizarra coloração de cinza arroxeado infestavam (até hoje infestam) a cidade e especialmente aquele bairro. Aquela Ipanema.
Um dia a empregada me disse que no alto do morro, pra depois dos barracos, morava um gavião. Não acreditei.
Um outro dia, noite de tiroteio, uma bala entrou pela janela e acertou a cama do meu tio, perfurando o colchão bem no ponto em que, não fosse noite de sexta feira, sua cabeça estaria dormindo. Uns meses depois explodiram uma granada por lá, e eu, que tinha ido dormir na sala pra não ter o mesmo destino do colchão do meu tio, vi a luz daquela explosão refletida no prédio em frente. Mais um tempinho, eu na segurança da casa de campo em Paty d’Alferes, vi a minha rua ser capa do globo, por motivo de mais um dos tiroteios. Foi a gota. Matamos a vida que tínhamos lá em Ipanema e fizemos nascer outra em Copacabana, a vizinha mais velha, mais kitsch e mais cheia daqueles pombos.
Lá em Copacabana os pombos não têm medo quando você corre atrás deles e eu, sem ter muita consciência, virei adolescente: ganhei penugem e criei meu primeiro par de asas. Ipanema, sua claridade acachapante, virou uma burguesa chic à ser combatida (tive formação vicentina) , um lugar para nunca mais voltar. É claro que, na curiosa geografia de mim e dos meus, o posto nove era como se não fosse Ipanema. Era permitido para banhos de mar, contemplação das fêmeas e, no caso de alguns mais corajosos que eu, experiências com os baseados que por ali circulavam. Como chegar até lá, se Ipanema era território proibido? Nós, gaivotamente, íamos voando.
(Às vezes, mijando no mar, eu olhava pro morro Dois Irmãos e me sentia no velho apartamento).
Passaram-se os anos e eis-me aqui, de volta a Ipanema. Não na condição de morador, mas namorando uma menina do bairro. Finalmente, depois de tantos anos, Ipanema adquiriu para mim as formas de mulher curvilínea que ela tem para o resto do mundo. Já não mais a Ipanema da minha infância, visto que a praça Nossa Senhora da Paz está irreconhecivelmente suja e a Praça General Osório está irreconhecivelmente limpa, nem a Ipanema burguesa neo-liberal, podre, retrógada etc. etc. etc. O bairro agora é onde mora o amor e onde moram os amores. Ipanema Zen, clichê do bem, bossa-nova cool. Como a namorada mora na cobertura, não há pombos.
Uma noite dessas, eu estava na varanda da namorada, contemplando (longe e segura) a pacificada favela do Cantagalo. Obriguei-me a reconhecer como de noite ela é de fato bonita, ouro sobre o azul escuro. Talvez como um rito de passagem da vida, ou, por outra, um sinal de tréguas, ou ainda por motivo nenhum, do nada, aconteceu um gavião. Pousado no gradil do prédio em frente. O gavião. Sereno, altivo, majestoso (acho que castanho), era um bicho que sei lá como se descreve. A antítese de um pombo, quem sabe. Fiquei quietinho, espreitando seus poucos movimentos até que ele abrisse as suas asas e sumisse na noite, rei do bairro, planando na direção do seu ninho no alto do morro. Não me dirigiu palavra, acho que se falasse algo diria “nunca mais”, mas eu, que nem sei por que comecei esse texto, não saberia o significado disso. Daí simplesmente fui lá voando atrás dele.
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quinta-feira, 6 de maio de 2010
sábado, 1 de maio de 2010
GELADEIRA- conto inicial das aventuras do professor Olímpio.
GELADEIRA
Surpreendi-me com o quão cheio estava o seu carrinho de compras. Ele não se contentava em levar um pote de geléia, tinha que levar logo três. Uma de morango, outra de maracujá e outra de uva. Alface, tomate, cenoura, coca-cola, cerveja, água de coco, sorvete de creme (três potes), maminha, filé, leite condensado, manteiga, chocolate e laranja. Quilos e quilos de comida perecivel, que se acumulavam no carrinho de tal forma que só com muito esforço ele, que já devia ter bem uns setenta anos, conseguia empurrar tudo até o caixa.
Voltei para os meus vinhos. Selecionei dois chilenos que andavam me interessando, um legítimo francês e fui pagar no caixa. Lá, o velho discutia com o atendente.
-Como você aí acha que eu vou conseguir carregar isso tudo até em casa? Sabe lá o que é ter setenta e sete anos, meu filho?
-Perdão, senhor, mas aos domingos não temos serviço de entrega a domicílio.
-Ah, agora eu, que paguei por isso tudo, não vou poder levar pra casa! Mas que absurdo! Desrespeito com os mais velhos!
-Sinceramente, gostaria muito de ajuda-lo, mas não sei como...
-Ah, não sabe como? Pois eu lhe digo como, moleque! Chame aqui o gerente!
Não é que eu estivesse com pressa, mas não queria gastar o meu tempo de ócio ali na fila do super-mercado. Se o gerente viesse, lá se iam dez minutos com as pernas esticadas naquele lugar que cheirava a verdura e coisas congeladas, e não era bem aquilo que eu tinha em mente para o meu domingo.
-Com licença...
-Desrespeito...
-Com licença, eu posso ajuda-lo a levar as compras pro seu apartamento, se o senhor não morar muito longe.
Pensando bem, não sei bem por que fiz aquilo. Não gosto muito de velhos, especialmente aqueles que se vangloriam de sua velhice,como aquele, que ostentava com um certo orgulho a barba mal feita e o nariz ranhento tão característicos dessa idade. O mais constrangedor de tudo foi ver o velho dando uma espécie de lição de moral no atendente, dizendo que eu sim era um jovem que sabia tratar os idosos. Fiquei terrivelmente envergonhado.
Finalmente ganhamos a avenida. Eu, o velho e as cinco sacolas plásticas abarrotadas de comida perecível. Os vinhos eu deixei para buscar depois, dadas as circunstâncias. Como o conteúdo das sacolas tinha acabado de sair do refrigerador, elas suavam. Pingavam no chão e iam fazendo um caminhozinho na calçada quase deserta daquele domingo. Era comida demais para um velho só. Como eu já estava lhe fazendo um favor, não me senti intimidado de perguntar coisas.
-De quanto em quanto tempo o senhor faz compras?
-A cada semana. Geralmente no sábado, mas como meu gato morreu ontem eu tive que vir hoje.
-Isso é comida demais pra uma pessoa só comer em uma semana. Principalmente um velho.
-Você não entende nada.
-Não mesmo.
-Eu sou professor universitário, rapaz.
Professor e velho. Difícil um tipo que pudesse me despertar mais antipatia.
-Professor Olímpio! Artigos pra escrever o tempo todo. Aulas pra preparar! Cartas, teses... É preciso estar com o cérebro sempre ativo e funcionando bem para essas atividades. Sempre! O dia em que eu me sentir menos lúcido do que eu me sentia aos vinte anos eu...
Lá ia minha cabeça longe, nas pernas da mulher que cruzara conosco. Nenhum desrespeito ao velho, era um mecanismo instintivo para que eu não me irritasse ainda mais com ele. Já me arrependia muito do favor que eu estava lhe fazendo. Quando a mulher cruzou a esquina e eu não tive mais saída, não me agüentei e perguntei:
-Mas o que isso tem a ver com esse monte de comida?
-Eu ia chegar lá, eu ia chegar lá...
Sob o sol da manhã, eu, como as sacolas, começara a suar também.
-É que eu adoro abrir a geladeira pra pensar. Acontece com algumas pessoas. Nos momentos em que falta a inspiração, basta que eu abra a geladeira durante uns cinco minutos para que uma idéia logo brote, assumindo forma na fumaça de gelo que sai das prateleiras...
Dessa vez nenhuma mulher passou, é que eu simplesmente não me lembro desse pedaço da fala do velho.
-Depois de mais de trinta anos disso eu descobri que a qualidade das idéias que me vem nessas horas é proporcional a exuberância da geladeira. É por que eu tenho que mantê-la sempre abarrotada de coisas coloridas.
-Pelo bem da ciência.
-É!
-Anh.
Finalmente chegamos a portaria dele. Ele me disse que dali o porteiro assumia. Apertei a sua mão e, com um pouco de pena do porteiro, tomei o rumo de volta ao super mercado para buscar as garrafas de vinho. Eu, que não queria perder dez minutos na fila do super mercado, acabara perdendo uns vinte ouvindo aquele falatório irritante do professor. Enquanto fazia de volta o caminhozinho de pingos que havíamos deixado eu comecei a imaginar o cheiro que deveria ter aquela geladeira. Um monte de coisa devia apodrecer ali dentro, só pra clarear as ideias do velho. Qualquer dia desses ele ia abrir aquela porta e sofrer um envenenamento ou algo do gênero, qualquer um poderia perceber isso. Aliás, o gato dele provavelmente morrera exatamente comendo alguma daquelas coisas podres. Existe muita gente realmente nojenta no mundo.
Surpreendi-me com o quão cheio estava o seu carrinho de compras. Ele não se contentava em levar um pote de geléia, tinha que levar logo três. Uma de morango, outra de maracujá e outra de uva. Alface, tomate, cenoura, coca-cola, cerveja, água de coco, sorvete de creme (três potes), maminha, filé, leite condensado, manteiga, chocolate e laranja. Quilos e quilos de comida perecivel, que se acumulavam no carrinho de tal forma que só com muito esforço ele, que já devia ter bem uns setenta anos, conseguia empurrar tudo até o caixa.
Voltei para os meus vinhos. Selecionei dois chilenos que andavam me interessando, um legítimo francês e fui pagar no caixa. Lá, o velho discutia com o atendente.
-Como você aí acha que eu vou conseguir carregar isso tudo até em casa? Sabe lá o que é ter setenta e sete anos, meu filho?
-Perdão, senhor, mas aos domingos não temos serviço de entrega a domicílio.
-Ah, agora eu, que paguei por isso tudo, não vou poder levar pra casa! Mas que absurdo! Desrespeito com os mais velhos!
-Sinceramente, gostaria muito de ajuda-lo, mas não sei como...
-Ah, não sabe como? Pois eu lhe digo como, moleque! Chame aqui o gerente!
Não é que eu estivesse com pressa, mas não queria gastar o meu tempo de ócio ali na fila do super-mercado. Se o gerente viesse, lá se iam dez minutos com as pernas esticadas naquele lugar que cheirava a verdura e coisas congeladas, e não era bem aquilo que eu tinha em mente para o meu domingo.
-Com licença...
-Desrespeito...
-Com licença, eu posso ajuda-lo a levar as compras pro seu apartamento, se o senhor não morar muito longe.
Pensando bem, não sei bem por que fiz aquilo. Não gosto muito de velhos, especialmente aqueles que se vangloriam de sua velhice,como aquele, que ostentava com um certo orgulho a barba mal feita e o nariz ranhento tão característicos dessa idade. O mais constrangedor de tudo foi ver o velho dando uma espécie de lição de moral no atendente, dizendo que eu sim era um jovem que sabia tratar os idosos. Fiquei terrivelmente envergonhado.
Finalmente ganhamos a avenida. Eu, o velho e as cinco sacolas plásticas abarrotadas de comida perecível. Os vinhos eu deixei para buscar depois, dadas as circunstâncias. Como o conteúdo das sacolas tinha acabado de sair do refrigerador, elas suavam. Pingavam no chão e iam fazendo um caminhozinho na calçada quase deserta daquele domingo. Era comida demais para um velho só. Como eu já estava lhe fazendo um favor, não me senti intimidado de perguntar coisas.
-De quanto em quanto tempo o senhor faz compras?
-A cada semana. Geralmente no sábado, mas como meu gato morreu ontem eu tive que vir hoje.
-Isso é comida demais pra uma pessoa só comer em uma semana. Principalmente um velho.
-Você não entende nada.
-Não mesmo.
-Eu sou professor universitário, rapaz.
Professor e velho. Difícil um tipo que pudesse me despertar mais antipatia.
-Professor Olímpio! Artigos pra escrever o tempo todo. Aulas pra preparar! Cartas, teses... É preciso estar com o cérebro sempre ativo e funcionando bem para essas atividades. Sempre! O dia em que eu me sentir menos lúcido do que eu me sentia aos vinte anos eu...
Lá ia minha cabeça longe, nas pernas da mulher que cruzara conosco. Nenhum desrespeito ao velho, era um mecanismo instintivo para que eu não me irritasse ainda mais com ele. Já me arrependia muito do favor que eu estava lhe fazendo. Quando a mulher cruzou a esquina e eu não tive mais saída, não me agüentei e perguntei:
-Mas o que isso tem a ver com esse monte de comida?
-Eu ia chegar lá, eu ia chegar lá...
Sob o sol da manhã, eu, como as sacolas, começara a suar também.
-É que eu adoro abrir a geladeira pra pensar. Acontece com algumas pessoas. Nos momentos em que falta a inspiração, basta que eu abra a geladeira durante uns cinco minutos para que uma idéia logo brote, assumindo forma na fumaça de gelo que sai das prateleiras...
Dessa vez nenhuma mulher passou, é que eu simplesmente não me lembro desse pedaço da fala do velho.
-Depois de mais de trinta anos disso eu descobri que a qualidade das idéias que me vem nessas horas é proporcional a exuberância da geladeira. É por que eu tenho que mantê-la sempre abarrotada de coisas coloridas.
-Pelo bem da ciência.
-É!
-Anh.
Finalmente chegamos a portaria dele. Ele me disse que dali o porteiro assumia. Apertei a sua mão e, com um pouco de pena do porteiro, tomei o rumo de volta ao super mercado para buscar as garrafas de vinho. Eu, que não queria perder dez minutos na fila do super mercado, acabara perdendo uns vinte ouvindo aquele falatório irritante do professor. Enquanto fazia de volta o caminhozinho de pingos que havíamos deixado eu comecei a imaginar o cheiro que deveria ter aquela geladeira. Um monte de coisa devia apodrecer ali dentro, só pra clarear as ideias do velho. Qualquer dia desses ele ia abrir aquela porta e sofrer um envenenamento ou algo do gênero, qualquer um poderia perceber isso. Aliás, o gato dele provavelmente morrera exatamente comendo alguma daquelas coisas podres. Existe muita gente realmente nojenta no mundo.
segunda-feira, 26 de abril de 2010
"Primeira estrela que eu vejo...
... Quero te fazer um pedido. Eu tenho uma coceira que me da na hora do banho bem naquele ponto das costas que as unhas não alcançam, estrelinha, faza coceira passar, por favor, ou pelo menos me arranja um galho, se bem que galho tem de monte eu devia ter pensado nisso antes, melhor mesmo é você emagrecer a minha mãe, que quanto mais gorda mais brava ela fica e eu não aguento mais tanta porrada, tanto castigo, tanto zumzumzum no meu ouvido. Primeira estrela que eu vejo, estrelinha, eu tenho uma vó que está morrendo na cama, coitada, com dor em tudo que é canto e esquecida de tudo, esquecida até de que não pode dizer nome feio, ela aprendeu nome feio com o meu avô, traz o meu avô de volta, faz minha vó melhorar, faz ela esquecer dos nomes feios... Primeira estrela que eu vejo, dá um dinheirinho? Um dinnheirinho que não precisa ser muito, só pra um cinema, um refrigerante, uma ida pras putas, me faz conhecer as putas, faz as putas pararem de existir que elas são é sujas, estrela, sujas! Um dinheirinho pra consertar a minha gaita, pra botar um freio novo na bicicleta, primeira estrela, eu quero uma bicicleta nova com vinte oito marchas, de alumínio, com olho de gato, buzina, selim de silicone e suporte pra garrafinha d'água, eu quero conhecer Deus, eu quero um dinheirão que nasça debaixo da minha cama, transborde das gavetas de roupa (faz sumirem as roupas feias!), entre pelos vãos da janela e dos buraquinhos das tábuas do chão do meu quarto. E a paz no mundo. Primeira estrela que eu vejo, eu não quero nada, só a paz no mundo, a paz com todo mundo de roupa branca cantando o dia todo uma música de comercial de natal sem parar pra nada, só pra comer. Só a paz no mundo, estrela, a paz no mundo e o coração daquela loirinha que senta na minha frente na sala de aula. É que aqueles olhinhos verdes, estrela..."
Indiferente e distante, o boeing continuou seu voo pelo entardecer aveludado.O engano do garoto na cidadezinha não foi injustificado: é verdade que as luzes do avião assim tão acesas davam mesmo a impressão de uma estrela quando vistas de longe. Lá dentro, sem saber que estavam na barriga de uma estrela e que ali estavam depositados tantos desejos, cento e poucas pessoas dormiam ou olhavam pela janela. Na barriga da estrela, todos aguardavam sem desejar ou temer o instante de pousar e seguir adiante as suas vidas, andando, respirando e morrendo quase sem perceber.
Indiferente e distante, o boeing continuou seu voo pelo entardecer aveludado.O engano do garoto na cidadezinha não foi injustificado: é verdade que as luzes do avião assim tão acesas davam mesmo a impressão de uma estrela quando vistas de longe. Lá dentro, sem saber que estavam na barriga de uma estrela e que ali estavam depositados tantos desejos, cento e poucas pessoas dormiam ou olhavam pela janela. Na barriga da estrela, todos aguardavam sem desejar ou temer o instante de pousar e seguir adiante as suas vidas, andando, respirando e morrendo quase sem perceber.
quarta-feira, 10 de março de 2010
Bachiana n°5 ou A história de um orgasmo.
Saiu de casa com o MP3 ligado, a nuca brincando de escorrega com a última gota que o cabelo guardara do banho. Saiu pela cidade, saiu de casa toda de branco, saiu pra academia. As ruas arborizadas do seu bairro de rica e ela travavam um diálogo mudo e sem fim, falando a língua secreta da beleza, das belezas, de tudo aquilo que é incompreensivel por ser luz. O dia era um daqueles nublados entre aspas pois que todo coberto de nuvens, mas de nuvens tão finas que eram filtro de uma luminosidade prateada, seca, elétrica. Ela indo pra academia.
No caminho, pensou. Pensou em dinheiro, em gente, em aparelhos eletrônicos, em notícias de jornal, em bebídas alcoólicas, em futuras viagens marítimas ao exterior, na peça ruim em cartaz, no trabalho, no marido, na empregada, na bancada de mármore de sua cozinha, num circo que assistira quando criança, em números de celular, em números de loteria, em números, em certo poema sentimental de uma autora do interior, na receita da revista, em roupas de baixo mais confortaveis que as que estava usando, em meninos de rua.
Ela pensou a maior parte do tempo em certo sabor novo de sorvete que ainda não provara. Melão com pêra. Os passantes que tentavam apreender toda a sua beleza esbarravam justamente nisso. Que uma parte da beleza dela vinha desse melão com pêra que só se advinhava dentro de sua cabeça pensante. Que era o segredo do seu tornozelo úmido ganhando a extensão da calçada da avenida. Eles ficavam só naquela roupa branca, naquela sugestão de transparência que era em sí já o melhor dos sabores de sorvete, mas não era tudo. Eles se davam por satisfeitos, os passantes. Ela, ela só pensava nessas coisas todas.
Até que a música do MP3 mudou, e mudou radicalmente. Não mais o pop, a salsa, o tango rock blues samba axé funk ou os as cantigas de roda. Os seus fones de ouvido atacaram de "Bachiana n°5", aquela mais famosa do Villa-Lobos. (taaaan, tan tan tan tan tan tan taaan tarantantan) E ela descobriu o mundo outra vez.Descobriu naquela coisa que via uma dança, uma ondulação épica que só não tomava o mundo por que é como se desde o príncipio já o fosse, mas ela só agora descobrira. Descobriu que o mundo em sí é apenas a representação viusal da bachiana n° 5, como um grande video-clip. Ela viu tudo dançar.
Os acionistas, as administradoras, os bombeiros, as babás, os canalhas, as crioulas, os dementes, as dançarinas, os engraxates, as estivadoras, os feirantes, as filiólogas, os grumetes, as garis, os homossexuais, as homossexuais, os idiotas, as investidoras, os joões-ninguem, as jogadoras de bridge, os loucos, as letristas de canção popular, os marinheiros, as médicas, os negros, as nadadoras, os obreiros, as osteopatas, os professores, as prostitutas, os quase-nadas, as quase-tudo, os repentistas, as roupeiras, os sacerdotes, as sociólogas, os tintureiros, as trocadoras, os urologistas, as umbandistas, os visionários, as velhas, os xiitas, as xerifes, os zagueiros, as zebras.
Tudo dançou pra seus ouvidos, mas dançou com a suavidade de quem já estava dançando antes, sem ser percebido.
No caminho, pensou. Pensou em dinheiro, em gente, em aparelhos eletrônicos, em notícias de jornal, em bebídas alcoólicas, em futuras viagens marítimas ao exterior, na peça ruim em cartaz, no trabalho, no marido, na empregada, na bancada de mármore de sua cozinha, num circo que assistira quando criança, em números de celular, em números de loteria, em números, em certo poema sentimental de uma autora do interior, na receita da revista, em roupas de baixo mais confortaveis que as que estava usando, em meninos de rua.
Ela pensou a maior parte do tempo em certo sabor novo de sorvete que ainda não provara. Melão com pêra. Os passantes que tentavam apreender toda a sua beleza esbarravam justamente nisso. Que uma parte da beleza dela vinha desse melão com pêra que só se advinhava dentro de sua cabeça pensante. Que era o segredo do seu tornozelo úmido ganhando a extensão da calçada da avenida. Eles ficavam só naquela roupa branca, naquela sugestão de transparência que era em sí já o melhor dos sabores de sorvete, mas não era tudo. Eles se davam por satisfeitos, os passantes. Ela, ela só pensava nessas coisas todas.
Até que a música do MP3 mudou, e mudou radicalmente. Não mais o pop, a salsa, o tango rock blues samba axé funk ou os as cantigas de roda. Os seus fones de ouvido atacaram de "Bachiana n°5", aquela mais famosa do Villa-Lobos. (taaaan, tan tan tan tan tan tan taaan tarantantan) E ela descobriu o mundo outra vez.Descobriu naquela coisa que via uma dança, uma ondulação épica que só não tomava o mundo por que é como se desde o príncipio já o fosse, mas ela só agora descobrira. Descobriu que o mundo em sí é apenas a representação viusal da bachiana n° 5, como um grande video-clip. Ela viu tudo dançar.
Os acionistas, as administradoras, os bombeiros, as babás, os canalhas, as crioulas, os dementes, as dançarinas, os engraxates, as estivadoras, os feirantes, as filiólogas, os grumetes, as garis, os homossexuais, as homossexuais, os idiotas, as investidoras, os joões-ninguem, as jogadoras de bridge, os loucos, as letristas de canção popular, os marinheiros, as médicas, os negros, as nadadoras, os obreiros, as osteopatas, os professores, as prostitutas, os quase-nadas, as quase-tudo, os repentistas, as roupeiras, os sacerdotes, as sociólogas, os tintureiros, as trocadoras, os urologistas, as umbandistas, os visionários, as velhas, os xiitas, as xerifes, os zagueiros, as zebras.
Tudo dançou pra seus ouvidos, mas dançou com a suavidade de quem já estava dançando antes, sem ser percebido.
quinta-feira, 4 de março de 2010
O PRIMEIRO DIA (baseado numa conversa com o professor Hugo Pinheiro)
Acordou com o rádio despertador tocando um velho sucesso. Sem abrir o olho, levou o dedo até o botão e desligou o aparelho, exatamente um instante antes da música durar o bastante para acordar sua mulher, que dormia encolhida no outro lado da cama. Só então levantou-se com o esforço característiico dos cheios de sono e colocou, sentando-se na cama, os pés descalços no chão do seu quarto escuro. Uma das únicas luzes, o letreiro digital do despertador informava que eram 6:20 da manhã. Ele se levantou, já desabotoando o pijama, e foi em direção ao banheiro, arrastando os pés.
Em segundos a luz do banheiro e a água do chuveiro inundaram seu corpo nu, permitindo que se visse que ele era um homem com sinais inequívocos de estar entrando na velhice. Seus olhos abertos miravam desinteressadamente os azulejos do banheiro, de cor bege, enquanto suas mãos faziam cega e acostumadamente o trabalho de pegar o sabonete e ensaboar-se, pegar o shampoo e passar nos cabelos grisalhos e ralos e etc. No final de tudo, ele desligou o chuveiro e pescou com a mão a toalha que o esperava fora do box. Secou-se. Em outros tempos, faria com desenvoltura a manobra de apoiar-se num pé só para poder secar o outro, coloca-lo fora do box, apoiar-se nele e secar o que ainda restara molhado. Agora saiu andando pelo banheiro chapinhando o chão com seus pés molhados e sentou-se na privada para seca-los.
Ao postar-se em frente ao espelho para escovar os dentes, deteve-se um instante para contemplar seu rosto, como fazemos quase todos nós diante do próprio reflexo. Os pensamentos que lhe passaram foram, como são os pensamentos, pouco sucetíveis a descrições, mas certamente envolviam a velhice que lhe chegava. O momento passou e foi sucedido pelo outro, absolutamente sem anormalidades, de escovar os dentes. A mão que não se ocupava dessa tarefa segurava a toalha precariamente enrolada em torno da sua cintura.
Ao sair do banheiro não se preocupou em apagar a luz, pois aquele facho contribuia para que a mulher acordasse, ela que já se contorcia de leve enquanto o rádio relógio dava as notícias do trânsito matinal, marcando em seu letreiro o horário de 6:35. Andou algo ruidosamente até o seu armário e já começou a escolher, antes de abri-lo, as roupas que iria usar.
A mesa do café o encontrou ainda de peito nu, era esse o cuidado que tinha com suas camisas, para não mancha-las de mel ou leite. Já estava, no entanto, com suas calças de cor cinza, que mesmo velhas preservavam certa aura respeitavel graças aos tratos extremosos que recebia do dono, ao usa-la, e da esposa do dono, ao lava-la. Ele comeu um pão com manteiga, tomou um copo de leite sem café, chupou uma laranja e levantou-se. Saiu andando em direção ao seu quarto e sua camisa. O jornal que estava do outro lado da porta da rua permaneceu intocado. O horário do trabalho não lhe permitia leituras matinais, apenas no final do dia.
Saiu de casa, e quem o visse saindo não advinharia em sua boca o recente beijo estalado dado pela esposa. O peso da pasta que carregava quase não era sentido pelo braço, que ja se acostumara absolutamente com ela. O velho retângulo de couro e seu conteúdo eram como que uma continuação do seu corpo. Checou no outro pulso o seu relógio, para conferir se eram realmente 6:55. Eram. Seguiu andando, subindo a calçada que aos poucos se tornava mais visivel conforme o sol subia e a iluminava. Sua boca começou a assoviar a melodia com a qual o rádio despertador o acordara. Um velho sucesso do seu tempo.
Sem que ele visse, embora o soubesse, em sua casa o rádio despertador marcou 7:00 quando ele finalmente parou de andar e chegou no ponto de ônibus. Parou sem se sentar, muito embora um rapaz uns tinra anos mais novo, vestido com roupas parecidas com as suas e segurando um pasta parecida com a sua, tivesse apressadamente se levantado para lhe ceder o lugar.
-O meu já está vindo - Disse apenas. Nem um minuto depois ele e o rapaz viram surgindo no horizonte o ônibus que, pela numeração, era o que ele pegava todos os dias, desde muitos anos, para ir ao trabalho. Sem que ele fizesse sinal o motorista parou, saudou-o com um sorriso e abriu a porta do ônibus. Ele não moveu um passo. Pela primeira vez seu olhar perdeu o ar mortiço que tinha desde o momento que acordara de manhã. Para a absoluta incredulidade do motorista e do jovem ao seu lado, ele disse, quase gargalhando:
-Hoje eu não vou!.
Hoje ele não iria. Não dirgiu mais a palavra ao motorista nem ao rapaz. Tampouco tornou a vê-los em qualquer momento de sua vida. Apenas virou seu corpo cento e oitenta graus e voltou a caminhar em direção de casa, para ler seu jornal e aproveitar o primeiro dia de sua aposentadoria.
Em segundos a luz do banheiro e a água do chuveiro inundaram seu corpo nu, permitindo que se visse que ele era um homem com sinais inequívocos de estar entrando na velhice. Seus olhos abertos miravam desinteressadamente os azulejos do banheiro, de cor bege, enquanto suas mãos faziam cega e acostumadamente o trabalho de pegar o sabonete e ensaboar-se, pegar o shampoo e passar nos cabelos grisalhos e ralos e etc. No final de tudo, ele desligou o chuveiro e pescou com a mão a toalha que o esperava fora do box. Secou-se. Em outros tempos, faria com desenvoltura a manobra de apoiar-se num pé só para poder secar o outro, coloca-lo fora do box, apoiar-se nele e secar o que ainda restara molhado. Agora saiu andando pelo banheiro chapinhando o chão com seus pés molhados e sentou-se na privada para seca-los.
Ao postar-se em frente ao espelho para escovar os dentes, deteve-se um instante para contemplar seu rosto, como fazemos quase todos nós diante do próprio reflexo. Os pensamentos que lhe passaram foram, como são os pensamentos, pouco sucetíveis a descrições, mas certamente envolviam a velhice que lhe chegava. O momento passou e foi sucedido pelo outro, absolutamente sem anormalidades, de escovar os dentes. A mão que não se ocupava dessa tarefa segurava a toalha precariamente enrolada em torno da sua cintura.
Ao sair do banheiro não se preocupou em apagar a luz, pois aquele facho contribuia para que a mulher acordasse, ela que já se contorcia de leve enquanto o rádio relógio dava as notícias do trânsito matinal, marcando em seu letreiro o horário de 6:35. Andou algo ruidosamente até o seu armário e já começou a escolher, antes de abri-lo, as roupas que iria usar.
A mesa do café o encontrou ainda de peito nu, era esse o cuidado que tinha com suas camisas, para não mancha-las de mel ou leite. Já estava, no entanto, com suas calças de cor cinza, que mesmo velhas preservavam certa aura respeitavel graças aos tratos extremosos que recebia do dono, ao usa-la, e da esposa do dono, ao lava-la. Ele comeu um pão com manteiga, tomou um copo de leite sem café, chupou uma laranja e levantou-se. Saiu andando em direção ao seu quarto e sua camisa. O jornal que estava do outro lado da porta da rua permaneceu intocado. O horário do trabalho não lhe permitia leituras matinais, apenas no final do dia.
Saiu de casa, e quem o visse saindo não advinharia em sua boca o recente beijo estalado dado pela esposa. O peso da pasta que carregava quase não era sentido pelo braço, que ja se acostumara absolutamente com ela. O velho retângulo de couro e seu conteúdo eram como que uma continuação do seu corpo. Checou no outro pulso o seu relógio, para conferir se eram realmente 6:55. Eram. Seguiu andando, subindo a calçada que aos poucos se tornava mais visivel conforme o sol subia e a iluminava. Sua boca começou a assoviar a melodia com a qual o rádio despertador o acordara. Um velho sucesso do seu tempo.
Sem que ele visse, embora o soubesse, em sua casa o rádio despertador marcou 7:00 quando ele finalmente parou de andar e chegou no ponto de ônibus. Parou sem se sentar, muito embora um rapaz uns tinra anos mais novo, vestido com roupas parecidas com as suas e segurando um pasta parecida com a sua, tivesse apressadamente se levantado para lhe ceder o lugar.
-O meu já está vindo - Disse apenas. Nem um minuto depois ele e o rapaz viram surgindo no horizonte o ônibus que, pela numeração, era o que ele pegava todos os dias, desde muitos anos, para ir ao trabalho. Sem que ele fizesse sinal o motorista parou, saudou-o com um sorriso e abriu a porta do ônibus. Ele não moveu um passo. Pela primeira vez seu olhar perdeu o ar mortiço que tinha desde o momento que acordara de manhã. Para a absoluta incredulidade do motorista e do jovem ao seu lado, ele disse, quase gargalhando:
-Hoje eu não vou!.
Hoje ele não iria. Não dirgiu mais a palavra ao motorista nem ao rapaz. Tampouco tornou a vê-los em qualquer momento de sua vida. Apenas virou seu corpo cento e oitenta graus e voltou a caminhar em direção de casa, para ler seu jornal e aproveitar o primeiro dia de sua aposentadoria.
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