sexta-feira, 9 de julho de 2010

Professor Olímpio contra o Horóscopo - Parte 3. "A Máfia".

Jonas, o Astrólogo, agora estava na crista da onda do ó do borogodó por cima da carne seca. A sua nova postura enquanto astrólogo, a de corrupto anti-ético que alterava os horóscopos de todos os dias e de todos os signos conforme o sujeitio pagasse a ele, tinha lhe rendido uma coluna no suplemento de domingo, umas entrevistas na hebe, um curso na Casa do Saber e agora ele já estudava abrir sua própria franquia de iogurte congelado, a yogoastros. Apesar de nunca mais ter consultado um mapa astral, seu prestígio crescera e ele era considerado até por outros astrólogos como um sujeito muito talentoso.
Um dia, ele estava em sua nova cobertura num condomínio chamado Barra UltraBlastResortBeach, ele recebeu um telefonema que o deixou nervoso. Era uma cliente assídua sua, uma socialite daquelas turbinadas que estava sempre pedindo que ele tentasse dar uma recalchutada nas previsões pro seu signo, Peixes, numa de deixar Peixes menos peixe morto. Ele já atendeu risonho, depois de engolir seu martini:
-Salve, minha Loira! Achei que vocÊ ainda tava lá nas ilhas Gregas... o que vai ser essa semana? "Peixes vai estar propenso a prosperar financeiramente" ou "sua lua em júpiter vai te proporcionar uma reviravolta amorosa"?
-Ah, Jonas... Snif... Nem me fale... É que, lá nas ilhas gregas, eu terminei com o Sílvio. Sabe, o Sílvio ministro?
-Aquele envolvido naquele escândalo?
-Ele mesmo.
-Então eu vou botar assim: "Peixes hoje vai sair de qualquer depressão em que tenha entrado e vai brilhar..." Daí vocÊ vai e arrasa lá na Baronette, mas antes deposita a quantia de sempre na minha conta, e...
-Você não entendeu, Jonas. Não é isso que eu quero. O Sívlio respeita muito o seu horóscopo... E eu quero que vocÊ ACABE com o Sílvio. Combinado?
-Ih, minha filha, pra falar mal o preço é acrescido de cinquenta por cento.
-Eu pago, eu pago.
-E qual é o signo do infeliz, querida?
-Capricórnio.

Opa, Capricórnio não.Aquilo era um problema. Desde que iniciara a sua "máfia", a única coisa que tinha permanecido exatamente igual era que ele falara sempre muito bem de Capricórnio. Coisa de suas relações com o seu primeiro cliente e padrinho, o Doutor Olímpio.

-Eu não posso, meu bem, capricórnio está fora de questão.
-Eu triplico o que eu ia te pagar.
-Minha Loira...
-Eu pago dez vezes o preço da tabela. Eu só quero foder com a vida do Silvio.
Era muito dinheiro. Ele, que tinha sido pobre e vivido numa casa cheirando a mijo a vida inteira, com esse dinheiro poderia se aposentar e abandonar a máfia, se dedicar a outros hobbies, torrar tudo num cruzeiro, sei lá. E além do mais, de uns tempos pra cá o Seu Olímpio andava meio sumido, só sabia que o velho não tinha morrido por que o dinheirinho dele continuava pingando todo mês na sua conta. Vai ver o velho não repararia, ele escreveria uma semana de coisas escabrosas sobre capricórnio e pronto, voltava ao normal.

-Combinado, minha loira.
-Você é um amor, Jonaszinho.
-Amor é o som do seu dinheirinho pingando, coração.

E Jonas, animado com o pagamento, fez um senhor trabalho, empolgado com o seu próprio talento. Muitos Capricornianos se suicidaram, tantas foram as desgraças que Jonas previu. O tal do Sílvio, transtornado com os escritos de Jonas, se embananou com os depoimentos que tinha que dar pra CPI do não sei o que e acabou preso por quebra de decoro parlamentar. Jonas estava rindo de orelha a orelha, checando na internet a sua conta bancária, inchada como um boi pronto pro abate. E era exatamente um boi pronto pro abate que o Jonas era, mas sem saber. Estava de noite. Uma noite sem nuvens naquela cobertura de frente pro mar.

E foi então que trovejou. MUITO alto.

- Você vai aprender a não brincar comigo, seu moleque.
-Caralho! Quem tá aí?

A primeira voz que falou vinha do alto, e era muito grave.A segunda era a de Jonas mesmo.

-Zeus está aqui. Zeus está em todo lugar. E aqui ele se manifesta contra quem achou que podia brincar com o seu culto.

Todas as luzes da casa de repente se apagaram.

CONCLUI NO PRÓXIMO EPISÓDIO!

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Uma intermitência do Morto

Escrito no calor da notícia da morte do Mestre José Saramago.


Não creio que tenhas morrido, depois de tornar-se íntimo da morte ao ponto de descrever-lhe as intermitências e as intimidades, Mas o fiz por que é o que se faz, e digo ainda que o fiz como quem pratica uma ação e não como aquele que está parado e a quem algo se sucede, Mas todos acreditávamos que a tivesse superado, que tivesse vencido a morte invencivel, Nunca foi minha intenção superar um que ou um quem, Críamos, pelo menos, que conhececes a morte bem o bastante para escapar, Não afirmo o contrário, E no entanto estás morto, Mas contigo aqui travo este diálogo, e estás vivo, É que apenas escrevo à tua maneira, imitando canhestramente teu famoso e inconfundivel modo de diálogo, E deste modo manifesto-me como sobrevivente da morte, sobrevivo assim nas letras que são a minha obra, ainda que não possa se dizer que estas sejam própriamente as minhas letras, Ainda uma vez nos ensina uma lição, Nada ensina aquele que escreve, antes faz o leitor relembrar algo que já traz em sí de íntimo, Como queira, Não acho que eu ainda alguma coisa queira, Já nada queres, Minto, quero, O que queres, Quero o descanso à beira do mar depois de ter finalmente zarpado da minha querida ilha de Lanzarote para esta outra em que estou agora, a um só tempo a mais desconhecida e uma velha amiga, A morte, A morte.




"Pela idade, há muito tempo que sou um velho. Mas só pela idade. Trabalho com a mesma vontade de sempre, a imaginação ainda não desertou de mim, compreendo melhor o mundo em que vivo, sou consciente do valor da vida, e, quanto à morte, ela chegará no seu dia, nem antes nem depois. Quem morre aos 20 anos, morre na sua velhice e não o sabia."


JOSÉ SARAMAGO

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Professor Olímpio contra o Horóscopo - Parte 2. "O Astrólogo"

Continuação da saga do professor Olímpio versus o Horóscopo. Afirmo aqui que esta é uma obra de ficção que não necessariamente expressa o pensamento do autor, mas que pode fazê-lo quando este bem (des) entender. Para ler o princípio, ver o post embaixo deste aqui. Aí vai:

Era princípio de noite e a casa onde morava o astrólogo, que se chamava Jonas, fedia a xixi de gato. O Astrólogo, que se chamava Jonas, suspirou. Releu o que havia escrito e continuou sem conseguir se convencer de que estava bom.

"Capricórnio. Hoje seu dia será absolutamente maravilhoso. Cheio de margaridas em flor. Todos os seus planos darão certo. Você estará especialmente sagaz, bonito, bem humorado e potente sexualmente. A semana: Não se preocupe, tudo dará certo. Se quiser, pode caçoar das pessoas de outros signos".

Já tinha um mês que era assim; O tal do velho ligava pra ele e dizia mais ou menos o que ele tinha que escrever no signo de capricórnio. Só coisas boas. Ele ia lá, escrevia, e aparecia um monte de dinheiro na sua conta bancária. Ele não fazia perguntas, tinha uma mãe idosa e com um problema urinário sério (que aliás era o que deixava toda a casa pequena onde os dois moravam com aquele cheiro horrivel), e a grana era mais que bem vinda. Em todo caso constantemente perguntava aos astros, em quem ele possuia sincera e ferrenha crença, o que poderia mover o velho a agir daquela maneira. As respostas destes não eram nunca conclusivas.

O astrólogo, que se chamava Jonas, tornou a suspirar. Desde criança ele sentia que possuia uma afinidade com as nebulosas forças astrais, e consumiu sempre vasta literatura sobre o assunto. Quando começou a fazer mapas astrais, fez alguns de graça para amigos mais chegados e todos (inclusive ele) ficaram surpresos quando viram que seu trabalho possuia surpreendente exatidão. Todos os seus amigos, que ele previra ricos e felizes, de fato o acabaram sendo. O único mapa astral que ele errara na vida fora, pasmen!, o dele próprio. O mapa que fizera pra si indicava uma vida adulta confortavel, morando num lugar alto, perto da praia e com uma grande quantia de água. Desde esse momento preparado para uma cobertura em Ipanema, o astrólogo, que se chamava Jonas, se surpreendeu quando acabou numa ladeira lá pros lados da praia do Caju (imprópria pra banho) com um desagradavel pântano no terrendo baldio ao lado. Como consolo para sí próprio ele dizia que não errara nos indicativos astrais, e sim na interpretação destes.

Estava perdido nesses devaneios quando o telefone tocou.

-Alô?
-Sou eu, o Professor Olímpio.
-Boa noite, professor.
-Pra quem? Tô todo fudido de dor nas costas.
-Tudo bem, professor. A lua está em peixes,isso vai curar todas as suas dores físicas.
-Vai a merda. Eu não acredito nessas coisas. Mas tenho uma sobrinha que tá em dúvida se casa com um rapaz ou não. E o rapaz é um imbecil, faz faculdade de Letras. Faz o favor de botar aí no signo de Virgem, que é o dela, para "Não acreditar em babacas metidos a poetas que venham tentar de comer e roubar a sua grana". Ela acredita muito nessas baboseiras.
- Esse não é o nosso trato! Eu combinei de alterar só o signo de capricórnio! Meu trabalho é sério, não posso ficar alterando as coisas só por que o senhor quer, isso aqui não é casa da mãe Joana.
-Por falar nisso, como é que vai a mijona da sua mãe?
-Olha aqui, seu Olímpio, eu tenho leitores, tehnho uma responsabilidade para com eles...
-Cê tem conseguido pagar direitinho o remédio dela agora?
-As pessoas no jornal podem começar a estranhar...

Do outro lado da linha, o Professor Olímpio suspirou. Com alguma imaginação conseguia até sentir o horrível cheiro de mijo.

-Bota o que eu te falei. Vai pingar mais dinheiro na sua conta esse mês.
-Eu não sou uma prostituta!
-Alías, tava pensando o seguinte. Uma das coisas que eu mais odeio no signo de capricórnio é esse fato dele ser meio cabra meio peixe. Que porra é essa? Isso é esculhambação de vocês astrólogos. Faz favor de mudar o desenho dele pra uma coisa mais bonitinha, combinado? Se quer minha sugestão, o desenho pode ser o de um labrador. É que eu tinha um labrador quando eu era criança.
-Seu... Seu Olímpio, isso é uma abuso...
-Me amarro num labrador.

Desanimado, o astrólogo, que se chamava Jonas, conseguiu demover o Professor Olímpio da idéia do Labrador, explicando aque aquele desenho da cabra meio peixe era uma imagem convencionada desde muito tempo pra mudar abruptamente. Mas teve que concordar em colocar uma inserção sobre não confiar em falsos amantes no signo de virgem.
Quando desligou o telefone e foi mais uma vez dar o remédio para sua infeliz mãe, o astrólogo, que se chamava Jonas, não imaginava o que estava para acontecer na sua vida.

Foi na semana seguinte que começou a mudança. O telefone tocou e ele achou que fosse Olímpio outra vez

-Professor?
-Que professor, rapaz? Você é o astrólogo do "Berro do Povo"?

Ele pensou que havia sido descoberto, gelou. Mas foi honesto.

-S...Sim.
-O homem que eu estava procurando! Eu sou o reitor da Universidade Federal, e um professor daqui andou falando muito de você. Eu gostaria de pedir um favor. O senhor é discreto, não? A minha esposa está entrando na menopausa, sabe como é, estou com medo dela perder o fogo dela, mas ela respeita muito o horóscopo. Quero que durante os próximos doze meses você coloque coisas luxuriantes no signo de peixes, ok? Pago adiantado. E muito bem.

O astrólogo, que se chamava Jonas, fez silêncio do outro lado da linha. Decidindo, talvez, se os pontinhos que brilhavam incessantemente na sua cabeça eram estrelas ou moedas.

CONTINUA NO PRÓXIMO EPISÓDIO

sábado, 29 de maio de 2010

Professor Olímpio contra o Horóscopo - PARTE 1. "O Jornal"

A pedidos, mais uma (ou mais meia, como se verá) do Professor Olímpio. Algo me diz que isso é o começo de uma saga.
Professor Olímpio dá aula de Topicos Elementares da Introdução á Teoria Ontológica na faculdade de Filosofia de uma importante universidade federal. Só que seu casamento com a filosofia já foram suas segundas núpcias, um amor de maturidade destinado a sanar suas dúvidas de velho, quem sabe uma conjuge destinada a cuidar dele no princípio de sua senilidade: Olímpio e a Filosofia nunca foram um par fogoso. Sua verdadeira paixão de juventude, aquela responsável por tantas descargas de adrenalina, ilusões e decepções, foi mesmo a política.
Olímpio, possuidor de farta coleção de quepes, blusas de botão e calças xadrez, além de cigarros hollywood, fora na mocidade um veemente militante da esquerda, e, homem estudioso que sempe foi, votou em branco em todas as eleições, desde aquelas para o centro acadêmico da faculdade até o pleito para presidente. Na velhice tornou-se moderado, rancoroso e com aquele amargor característico dos que viram quase tudo na vida e gostaram, vá lá, de uma ou duas coisas no máximo. Um dos poucos hábitos da mocidade que preservou no seu ocaso filosófico foi a ojeriza aos jornais de grande circulação("manipuladores! vendidos!"): Olímpio só lê "O Berro do Povo", um jornal desses que quando torce sai sangue mas que, há muitos anos, foi um quase importante jornal da esquerda.
Olímpio parecia não ter dado por essa mudança de linhe editorial até o dia em que seus olhos bateram numa coluna que até o dia anterior não era publicada: um horóscopo. Ficou sinceramente decepcionado com a novidade, pois como todo bom acadêmico considerava a astrologia uma besteira sem fundamento algum. Sentiu saudades do tempo em que aquele lado direito da terceira pagina era ocupado pelo colunista Bílio Bastos, articulista que depois pegara em armas no interior do Tocantins. Naquele instante, diante de seu farto café da manhã (ver conto anterior do Olímpio), Olímpio revisitou todo seu ódio diante do horóscopo, ódio esse que passa sim pelo cientificismo barato e pelo sectarismo de suas posições mas, como é sempre o caso de Olímpio, tem raízes muito mais profundas.
Olímpio, é preciso dizer, é do signo de Capricórnio. O leitor é desse signo ou conhece alguem que o seja? Capricórnio é o signo inventado, provavelmente, quando os gregos conseguiram onze signos excelentes, onze histórias zodiacais bacanérrimas e quiseram completar com doze... "pra ficar numero par". Sei lá. Já era fim de noite lá na grécia e os gregos tinham tomado muito vinho quando um babaca histórico soltou "Pô, bora fazer um bicho meio cabra meio peixe e fazer o cara que nasce nesse signo não ter nada de legal na personalidade dele". Todo mundo deve ter rido e topado. Malditos bêbados. Geraram pessoas como Olímpio, que sempre foi um amargurado na vida por ter amigos com signos legais como "leão" ou "escorpião", ou até o insossamente fofinho "peixes" e não poder partilhar da alegria deles. O capricórnio é o que? Pode perguntar pra um astrólogo.
-O Capricórnio é ambicioso com uma certa ganância, nada vai impedi-lo de alcançar seus objetivos, geralmente egoístas. Ele é racional, recluso (eufemismo para mal-humorado) e dissimulado.
Ah, legal, né? Que estimulante essa descrição. Imagine quantas mães devem ter querido "segurar" seus filhinhos na barriga para protege-los de nascer no famigerado mês de Janeiro, que faria deles capricornianos.
A mãe de Olímpio não teve esse cuidado e o pobre coitado nasceu justamente nos meados do primeiro mês do ano.
Pois Olímpio engoliu em seco a sua raiva e continuou comprando o "Berro do Povo", decido a ignorar o horóscopo e principalmente as referências ao seu signo. Claro que em poucos dias sua neurose o dominou e ele bateu o olho na parte proibida do jornal. Lá estava:


Capricórnio: Muito cuidado com a sua personalidade. Dome seus impulsos e evite magoar as pessoas com seus gestos descuidados e egoístas. Época ruim para relacionamentos amorosos e profissionais.

Olímpio ficou com uma raiva que há muito não o dominava (desde quando uma babá passsara com um carrinho de bebê por cima do seu pé, pra ser mais exato). Olímpio imediatamente catou seu quepe, seus cigarros e de pijama mesmo foi até a redação do jornal, decidido a tirar a limpo anos e anos daquela maldita opressão zodiacal. Pegou um ônibus morto de raiva, desceu dele quase espumando, entrou na redação do "Berro do Povo" assustando a pobre da recepcionista e berrou:

-Eu quero falar com a porra do astrólogo que faz aquela merda daquele horóscopo, caralho! E é melhor ele vir sozinho!

Por algum tipo dessas coincidências que só os astros explicam, o pobre do astrólogo estava exatamente deixando a redação naquele instante para ir almoçar, e ouviu os berros de Olímpio.

-Algum problema, senhor, eu sou o astrólogo do jornal. Alguma dúvida te atormenta, os astros podem ajudar em alguma coisa?

Olímpio olhou para ele. Seus olhos saltaram um pouco pra fora das órbitas e há testemunhas que afirmem que ele chegou a babar. Mas se o fez, se realmente deixou-se dominar assim pela raiva, num instante se conteve. Algo o fez racionalizar, provavelmente seu espírito essêncialmente classudo de professor universitário. Finalmente conseguiu falar.

-Quanto você quer? Pode falar, que eu tenho dinheiro. Quanto você quer pra começar a publicar coisas boas sobre capricórnio? Quanto você quer para reabilitar a imagem do meu signo?


CONTINUA NO PRÓXIMO EPISÓDIO

segunda-feira, 17 de maio de 2010

alô?

Mesmo sem receber um único mísero comentário desde sei lá quantos posts atrás eu ainda persevero nesse blog, conifante de que eu possuo leitores sim, só que todos leitores discretos que preferem não se pronunciar. Ok, sem problemas quanto a isso. Aproveito o ensejo, mudando de assunto, para exorta-los todos (quantos vocês são? três? cinco? mil? Laura, é só você?) para conhecer o outro blog para o qual eu contribuo, o blog da minha banda, o Pangaré Valente. www.pangarevalente.blogspot.com
Espero que seja do agrado de quem quer que queira agradar a sí próprio.

quinta-feira, 6 de maio de 2010

MINHAS MEMÓRIAS ORNITOLÓGICAS DE IPANEMA

Lá onde eu nasci tudo era muito isso e aquilo, tal e qual. Da janela da sala se viam as janelas das salas dos prédios em frente, dos quartos e da cozinha via-se a favela do Cantagalo e, estranhamente, do basculante do banheiro você tinha uma vista perfeitamente emoldurada do morro Dois Irmãos sobre o Oceano Atlântico, o que no verão dava ao usuário do vaso sanitário um pôr-do-sol pelo qual muitos pagariam milhões. Lá onde eu nasci era uma Ipanema cheia de pássaros e sujeira, donde não faltavam pássaros sujos: Gaivotas sujas em “vês” assimétricos sobre o mar, galinhas sujas ciscando na favela e, os piores de todos, uma raça de pombos mutantes sujíssimos e tristíssimos, que na bizarra coloração de cinza arroxeado infestavam (até hoje infestam) a cidade e especialmente aquele bairro. Aquela Ipanema.

Um dia a empregada me disse que no alto do morro, pra depois dos barracos, morava um gavião. Não acreditei.

Um outro dia, noite de tiroteio, uma bala entrou pela janela e acertou a cama do meu tio, perfurando o colchão bem no ponto em que, não fosse noite de sexta feira, sua cabeça estaria dormindo. Uns meses depois explodiram uma granada por lá, e eu, que tinha ido dormir na sala pra não ter o mesmo destino do colchão do meu tio, vi a luz daquela explosão refletida no prédio em frente. Mais um tempinho, eu na segurança da casa de campo em Paty d’Alferes, vi a minha rua ser capa do globo, por motivo de mais um dos tiroteios. Foi a gota. Matamos a vida que tínhamos lá em Ipanema e fizemos nascer outra em Copacabana, a vizinha mais velha, mais kitsch e mais cheia daqueles pombos.
Lá em Copacabana os pombos não têm medo quando você corre atrás deles e eu, sem ter muita consciência, virei adolescente: ganhei penugem e criei meu primeiro par de asas. Ipanema, sua claridade acachapante, virou uma burguesa chic à ser combatida (tive formação vicentina) , um lugar para nunca mais voltar. É claro que, na curiosa geografia de mim e dos meus, o posto nove era como se não fosse Ipanema. Era permitido para banhos de mar, contemplação das fêmeas e, no caso de alguns mais corajosos que eu, experiências com os baseados que por ali circulavam. Como chegar até lá, se Ipanema era território proibido? Nós, gaivotamente, íamos voando.

(Às vezes, mijando no mar, eu olhava pro morro Dois Irmãos e me sentia no velho apartamento).

Passaram-se os anos e eis-me aqui, de volta a Ipanema. Não na condição de morador, mas namorando uma menina do bairro. Finalmente, depois de tantos anos, Ipanema adquiriu para mim as formas de mulher curvilínea que ela tem para o resto do mundo. Já não mais a Ipanema da minha infância, visto que a praça Nossa Senhora da Paz está irreconhecivelmente suja e a Praça General Osório está irreconhecivelmente limpa, nem a Ipanema burguesa neo-liberal, podre, retrógada etc. etc. etc. O bairro agora é onde mora o amor e onde moram os amores. Ipanema Zen, clichê do bem, bossa-nova cool. Como a namorada mora na cobertura, não há pombos.
Uma noite dessas, eu estava na varanda da namorada, contemplando (longe e segura) a pacificada favela do Cantagalo. Obriguei-me a reconhecer como de noite ela é de fato bonita, ouro sobre o azul escuro. Talvez como um rito de passagem da vida, ou, por outra, um sinal de tréguas, ou ainda por motivo nenhum, do nada, aconteceu um gavião. Pousado no gradil do prédio em frente. O gavião. Sereno, altivo, majestoso (acho que castanho), era um bicho que sei lá como se descreve. A antítese de um pombo, quem sabe. Fiquei quietinho, espreitando seus poucos movimentos até que ele abrisse as suas asas e sumisse na noite, rei do bairro, planando na direção do seu ninho no alto do morro. Não me dirigiu palavra, acho que se falasse algo diria “nunca mais”, mas eu, que nem sei por que comecei esse texto, não saberia o significado disso. Daí simplesmente fui lá voando atrás dele.

sábado, 1 de maio de 2010

GELADEIRA- conto inicial das aventuras do professor Olímpio.

GELADEIRA



Surpreendi-me com o quão cheio estava o seu carrinho de compras. Ele não se contentava em levar um pote de geléia, tinha que levar logo três. Uma de morango, outra de maracujá e outra de uva. Alface, tomate, cenoura, coca-cola, cerveja, água de coco, sorvete de creme (três potes), maminha, filé, leite condensado, manteiga, chocolate e laranja. Quilos e quilos de comida perecivel, que se acumulavam no carrinho de tal forma que só com muito esforço ele, que já devia ter bem uns setenta anos, conseguia empurrar tudo até o caixa.
Voltei para os meus vinhos. Selecionei dois chilenos que andavam me interessando, um legítimo francês e fui pagar no caixa. Lá, o velho discutia com o atendente.
-Como você aí acha que eu vou conseguir carregar isso tudo até em casa? Sabe lá o que é ter setenta e sete anos, meu filho?
-Perdão, senhor, mas aos domingos não temos serviço de entrega a domicílio.
-Ah, agora eu, que paguei por isso tudo, não vou poder levar pra casa! Mas que absurdo! Desrespeito com os mais velhos!
-Sinceramente, gostaria muito de ajuda-lo, mas não sei como...
-Ah, não sabe como? Pois eu lhe digo como, moleque! Chame aqui o gerente!
Não é que eu estivesse com pressa, mas não queria gastar o meu tempo de ócio ali na fila do super-mercado. Se o gerente viesse, lá se iam dez minutos com as pernas esticadas naquele lugar que cheirava a verdura e coisas congeladas, e não era bem aquilo que eu tinha em mente para o meu domingo.
-Com licença...
-Desrespeito...
-Com licença, eu posso ajuda-lo a levar as compras pro seu apartamento, se o senhor não morar muito longe.
Pensando bem, não sei bem por que fiz aquilo. Não gosto muito de velhos, especialmente aqueles que se vangloriam de sua velhice,como aquele, que ostentava com um certo orgulho a barba mal feita e o nariz ranhento tão característicos dessa idade. O mais constrangedor de tudo foi ver o velho dando uma espécie de lição de moral no atendente, dizendo que eu sim era um jovem que sabia tratar os idosos. Fiquei terrivelmente envergonhado.
Finalmente ganhamos a avenida. Eu, o velho e as cinco sacolas plásticas abarrotadas de comida perecível. Os vinhos eu deixei para buscar depois, dadas as circunstâncias. Como o conteúdo das sacolas tinha acabado de sair do refrigerador, elas suavam. Pingavam no chão e iam fazendo um caminhozinho na calçada quase deserta daquele domingo. Era comida demais para um velho só. Como eu já estava lhe fazendo um favor, não me senti intimidado de perguntar coisas.
-De quanto em quanto tempo o senhor faz compras?
-A cada semana. Geralmente no sábado, mas como meu gato morreu ontem eu tive que vir hoje.
-Isso é comida demais pra uma pessoa só comer em uma semana. Principalmente um velho.
-Você não entende nada.
-Não mesmo.
-Eu sou professor universitário, rapaz.
Professor e velho. Difícil um tipo que pudesse me despertar mais antipatia.
-Professor Olímpio! Artigos pra escrever o tempo todo. Aulas pra preparar! Cartas, teses... É preciso estar com o cérebro sempre ativo e funcionando bem para essas atividades. Sempre! O dia em que eu me sentir menos lúcido do que eu me sentia aos vinte anos eu...
Lá ia minha cabeça longe, nas pernas da mulher que cruzara conosco. Nenhum desrespeito ao velho, era um mecanismo instintivo para que eu não me irritasse ainda mais com ele. Já me arrependia muito do favor que eu estava lhe fazendo. Quando a mulher cruzou a esquina e eu não tive mais saída, não me agüentei e perguntei:
-Mas o que isso tem a ver com esse monte de comida?
-Eu ia chegar lá, eu ia chegar lá...
Sob o sol da manhã, eu, como as sacolas, começara a suar também.
-É que eu adoro abrir a geladeira pra pensar. Acontece com algumas pessoas. Nos momentos em que falta a inspiração, basta que eu abra a geladeira durante uns cinco minutos para que uma idéia logo brote, assumindo forma na fumaça de gelo que sai das prateleiras...
Dessa vez nenhuma mulher passou, é que eu simplesmente não me lembro desse pedaço da fala do velho.
-Depois de mais de trinta anos disso eu descobri que a qualidade das idéias que me vem nessas horas é proporcional a exuberância da geladeira. É por que eu tenho que mantê-la sempre abarrotada de coisas coloridas.
-Pelo bem da ciência.
-É!
-Anh.
Finalmente chegamos a portaria dele. Ele me disse que dali o porteiro assumia. Apertei a sua mão e, com um pouco de pena do porteiro, tomei o rumo de volta ao super mercado para buscar as garrafas de vinho. Eu, que não queria perder dez minutos na fila do super mercado, acabara perdendo uns vinte ouvindo aquele falatório irritante do professor. Enquanto fazia de volta o caminhozinho de pingos que havíamos deixado eu comecei a imaginar o cheiro que deveria ter aquela geladeira. Um monte de coisa devia apodrecer ali dentro, só pra clarear as ideias do velho. Qualquer dia desses ele ia abrir aquela porta e sofrer um envenenamento ou algo do gênero, qualquer um poderia perceber isso. Aliás, o gato dele provavelmente morrera exatamente comendo alguma daquelas coisas podres. Existe muita gente realmente nojenta no mundo.