quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Para Laura Loureiro

Poema para namorada, o que vai contra o que me propus quando escrevi a minha descrição pessoal nesse blog. Coisas da vida.

Se a vida é mesmo uma senda
O amor é essa tenda
em que se mora.

Se a vida é a pagã peleja
O amor é a igreja
em que se ora.

Se a vida é chorar um arroio
O amor é olho
de onde se chora.

Se a vida é uma fruta no chão
O amor é o botão
Antes da flora.

Se a vida é, enfim, ir-se embora,
Vagar pelo mundo sem centro,
O amor é, pois, todo o dentro,
Pra que possa haver um fora.

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

breve pensamento












"Bem peneirados, "Muito" e "Pouco" renderiam um único disco, melhor resolvido que os dois. Muitas das sobras estão no segundo, com insossas canções do fraco Johansen, "Oh my love, my love" e "Waiting for the sun to shine" (esta em parceria com o intérprete), e a arrastada toada "Saudade", que Moska escreveu com Chico Cesar, e Bethânia (em dueto com Lenine) lançou em 2009 no CD "Tua". Bastava aquela gravação. Como Tom & Vinicius lembraram há cinco décadas, chega de saudade!"

Retirado da resenha que o "globo" fez do disco "muito pouco" do Paulinho Moska. (O resenhista é um sujeito chamado Antônio Carlos Miguel)

A resenha, como de hábito, é muito ruim, e o disco, como de hábito é muito bom. Mas o trabalho medíocre do indivíduo que escreveu a resenha pode ser melhor percebido no final do texto, quando fica claro que ele só falou mal da música "saudade" para poder fazer o trocadalho do carilho com a canção de tom e vinícius. Todos nós estamos carecas de saber o quão irresponsável é a crítica musical no nosso país, mas essa eu ainda não conhecia: definir a opinião sobre uma obra apenas pela qualidade da piadinha que se pode fazer com essa opinião. Dá muita preguiça de argumentar com um texto desses, então eu sugiro que vocês que estejam lendo isso dêem um jeito qualquer de ouvir a música "saudade", que encerra o disco. É linda, do caralho, uma das melhores coisas que eu ouvi ultimamente, e por sí só destrói esse trabalho medíocre desse pobre crítico.

pra se ter uma idéia da gravação de "saudade" que está no disco, aí vai este vídeo, que está bem próximo (com o ônus de não ter a voz linda do chico cesar):

http://www.youtube.com/watch?v=ZWjXc70l3yw

Saudações a esse belo disco duplo, que devia ser duplo mesmo!

ps: quem conseguir, escute o blues "provavelmente você" também, uma música linda com uma segunda voz da porra.
vídeo dela (bem inferior a versão de estúdio, é verdade, principalmente por não ter a tal segunda voz):

http://www.youtube.com/watch?v=z11TWoUBTQI

domingo, 8 de agosto de 2010

Misture bem e deixe a massa crescer














Escrevo sob e sobre a FLIP 2010, daonde acabo de voltar. "Sobre" por que esse é o assunto do meu texto, e "sob" por que ainda estou SOB o impacto dessa grande FESTA (pois, ao contrário do que pode se pensar, o f de flip não é de feira) que anualmente celebra a literatura e a cidade de paraty, duas coisas velhas que resistiram aos avanços do tempo conservando a sua beleza e o seu poder.

O homenageado da vez foi o sociologo Gilberto Freyre, numa atitude que surpreendeu a agradou, visto que mostrou que a literatura brasileira é plural e disversificada, não possuindo baluartes apenas no campo da poesia e da ficção (genêros aos quais pertenciam os homenageados até então). Claro que quando eu digo "surpreendeu e agradou" só posso estar dizendo por mim, sem generalizar minha opinião, pois é fato que na verdade a escolha foi controvertida. A moda de "proteção de minorias" que atacou o pensamento sociológico brasileiro fez com que determinadas escolas (represenatadas na FLIP) vissem em trechos isolados e fora de contexto de Freyre afirmações de cunho anti-semita, racista, etc, etc, sem levar em conta que o todo da obra dele atua justamente como DES-recalcador do nosso racismo, pro bem ou pro mal trazendo a questão do negro e do índio para o centro do debate sobre a identidade nacional. Claro que, para determinados cientistas que se dizem cientistas humanos mas são absurdamente cientifcistas, cerebrais e positivistas, é muito fácil atacar um autor que escreve tão a partir de seus AFETOS como Gilberto Freyre. Mas tudo bem. A FLIP mostrou quem estava certo no decorrer dos quatro dias.
Quatro dias de osteniva libertinagem literária, com alta licensiosidade libidinosa entre as escolas, as sintaxes, os conceitos e as palavras. As mesas onde Peter Burke e Robert Darnton discutiram o futuro do livro fornicaram conceitualmente com os poetas de rua da periferia de são paulo que conseguiram imprimir suas obras em tiragens simples e baratas graças à mobilização comunitária e divulgar seu trabalho na FLIP. O futuro do livro, em algum lugar entre o I-Pad e e o cordel de rua, nascerá com certeza desse equilíbrio entre opostos, dessa DEMOCRACIA RACIAL DE ENCADERNAÇÕES. Ao mesmo tempo em que isso acontecia, o chato do Richard Dawkins, aquele darwinista MALA que falou na FLIP passada, foi devidamente contraposto pelo pensamento mestiço do ingles arianíssimo Terry Eagleton, teórico da literatura, que lembrou a todos nós que não só Deus sobreviveu aos atentados terroristas de Nitty como também está mais revolucionário e marxista do que nunca. Linha de pensamento jamais "clara", jamais "limpa", jamais "objetiva", mas inebriada pelo ópio do povo, que não alieniza mas dá um barato muito louco. Terry Eagleton conversou com Gilberto Freyre talvez sem saber, mas isso é comum de qualquer FESTA. Mas o grande elogio à MESTIÇAGEM, à MISTURA, às IMPUREZAS, aconteceu mesmo na figura do nosso poeta Ferreira Gullar, que contou como se foi ao mesmo tempo o pai e o assassino do concretismo asséptico dos paulistas e depois o poeta que gerou o POEMA SUJO, obra de nome tão sugestivo quanto Freyreano. Quando o poeta, já tendo revisitado toda sua vida na mesa com a graça de um Clown (coisa que ele se tornou), começou a recitar um longo trecho desse poema-obra-prima, a FLIP inteira se encheu de lágrimas. Ou foram só os meus olhos?
Muito ainda pra dizer, até agora eu não mencionei o originalíssimo show de abertura (essa dobradinha nestrovski/lobo) e nem os poderosíssimos saraus que rolaram pelas madrugadas, mas acontece que estou cansado da viagem, e eufórico demais pra escrever decentemente. Basta resumir dizendo que em tudo puderam ser vistos os signos da mestiçagem, do sincronismo e do entrecruzamento (por que não dizer logo fornicação?) de idéias. Tudo sobre o signo de Freyre, semrpe muito maior do que os que tentaram fazer dessa flip o seu mausoléu.
E olha que eu nem comecei a falar ainda da cachaça...


LISTA DE COMPRAS- FLIP 2010:

O MISTÉRIO DO SAMBA- Hermano Vianna
CACHALOTE- Daniel Galera & Rafael Coutinho
ALGUMA POESIA, Fac Símile da 1a edição - Carlos Drummond de Andrade (Org. Eucanaã Ferraz)
O PRESIDENTE NEGRO- Monteiro Lobato
O DIA EM QUE JAMES BROWN SALVOU A PÁTRIA - James Sullivan
VOO DE PRIMEIRA CLASSE- Mannu U.F. & J.R. MC
LIVRETO SEM NOME DO POETA MAURÍCIO MARQUES

Para o futuro, prevejo a compra de livros dos senhores Robert Darnton, Salman Rushdie e Terry Eagleton.

sábado, 24 de julho de 2010

Perto do Umbigo Dela.

Perto do umbigo dela eu deslizando nela assim o meu nariz
Ela achava boa aquela sensação da gente viver por um triz

Com a minha lingua ali eu lia e decifrava o seu idioma
Compreendia o que ela não dizia, assim um bárbaro entrando em roma

Tanto gesto e gosto junto e não faltava assunto pra gente calar
Que era assim feito defunto morto de amar muito gente a se estar

Todas as fontes de luz a gente é que conduz num lance de bravata
Contra Deus e os santos seus, alados e ateus de terno e de gravata

Meu nariz já no teu peito que tem cor e jeito de um morro de terra
Haja um coração que habite-o e eu vou erguer um sítio no pé dessa serra

Todas as fontes de cor conduzem o amor na direção do chão
Pra explodir todos os tons até haver só sons, lençóis de escuridão

Todas as fontes de cor conduzem o amor do chão às direções
Pra explodir todos os tons até haver só sons, sem sóis, nascentes de canções.

terça-feira, 20 de julho de 2010

Professor Olímpio contra o Horóscopo - Parte 4. "O FIM"


Eis o final do meu primeiro mini-folhetim de quatro capítulos, que eu fiz questão de escrever sem a menor idéia do que colocar no capítulo seguinte. Foi mais um desabafo pela escrotice do meu signo (sim, se alguem ainda não entendeu eu sou de capricórnio), mas ao longo dessas poucas e bem mal escritas linhas eu pude falar também de algumas outras coisas. Melhores histórias virão, e com mais sentido também. Um abraço e aí vai:

O editor do jornal "O Berro do Povo" desligou o telefone, irritado, e gritou com a sua secretária, coisa que sempre o tranquilizava.

-Porra! Aquele puto daquele astrólogo não entregou a coluna dele de hoje e não atende o celular!

-O senhor deseja um café, senhor?

Não houve tempo para a resposta. O editor tinha acessado o site do g1 (era um tique dele, sempre que ficava nervoso ele ou abria um vídeo de besteira no youtube ou a página de "notícias bizarras" do g1) e agora olhava, estupefato, a maior manchete do site:

INCÊNDIO NO RECREIO DOS BANDEIRANTES.

DURANTE A TEMPESTADE DE ONTEM A NOITE UM RAIO ATINGIU A COBERTURA DO BADALADO ASTRÓLOGO JONAS THOMAS, DO JORNAL "O BERRO DO POVO". O RAIO QUEBROU VIDRAÇAS E ACARRETOU UM INCÊNDIO QUE FOI RAPIDAMENTE CONTROLADO. O ASTRÓLOGO, NO ENTANTO, NÃO FOI ENCONTRADO, SUSPEITA-SE QUE ELE ESTEJA MORTO.

-Tr... Traz o café, Soninha. E escrteve "Luto" no meu Twitter.


A notícia foi badalada por algumas semanas, ninguém achou o corpo, chegaram a sugerir assassinato por conta de umas manchas de sangue meio suspeitas, mas como não se achou nenhuma evidência mais concreta a hipótese não foi adiante. Durante as curtas investigações, uma busca no computador do desaparecido astrólogo Jonas revelou que ele era uma fraude, pôs os nomes de várias pessoas que o tinham subornado na berlinda e um pequeno fuzuê se deu no mundo das celebridades. A pessoa que mais tinha requisitado fraudes de Jonas, no entanto, não era nenhuma eminência, e sim um misterioso "Professor O.", sempre com pedidos para o signo de capricórnio. Milhares de Carpicornianos que tinham ganho uma esperança com as previsões otimistas do astrólogo voltaram ao seu estado de acabrunhamento típico, quando souberam que tudo não passara de uma fraude. Depois um veio Copa do Mundo, escândalos políticos e todos se esqueceram do sumiço do astrólogo.

Mas e o Professor Olímpio? O Professor Olímpio continua em casa, desistiu de vez de ler o horóscopo e acompanha com interesse a nova coluna que tomou o lugar dele: "Reforma Agraria do espaço virtual", por um professor amigo seu na faculdade. Ficou feliz de não ter mais que mandar dinheiro pro astrólogo, mas está até agora pagando a prestação do matador de aluguel. Matador de aluguel? Pois é. E o matador, coitado, ainda não entendeu por que teve que falar aquele texto estranho por um alto falante no telhado do Jonas antes de matar o cara, tocar fogo na casa e dar sumiço no corpo. Mas não se preocupou muito, afinal tinha escolhido esse ramo de trabalho por conta justamente do fato de não queria cair numa rotina.

A noite caiu, e o editor do jornal terminou seu café enquanto a minha câmera de narrador começou a se afastar dele. E por toda a cidade, ou melhor, por todo o mundo, Bilhões de pessoas continuaram seus caminhos de lugar nenhum pra sabe-se lá aonde. Todas meio melancólicas pela Angústia-Da-Condição-Humana-De-Que-Nos-Fala-Sartre, mas só umas poucas escolhidas realmente tristes. Tristes, tristíssimas, por que eram do maltido signo de capricórnio.

Câmera foca o pôr do sol, fade out.

FIM.

segunda-feira, 19 de julho de 2010

À moda do sut

Tochas:
Iluminariam seu caminho
Taxis:
O levariam em fuga veloz

Mas ele
Sem tochas e sem taxis
Apenas
Intoxica-se de sintaxes

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Professor Olímpio contra o Horóscopo - Parte 3. "A Máfia".

Jonas, o Astrólogo, agora estava na crista da onda do ó do borogodó por cima da carne seca. A sua nova postura enquanto astrólogo, a de corrupto anti-ético que alterava os horóscopos de todos os dias e de todos os signos conforme o sujeitio pagasse a ele, tinha lhe rendido uma coluna no suplemento de domingo, umas entrevistas na hebe, um curso na Casa do Saber e agora ele já estudava abrir sua própria franquia de iogurte congelado, a yogoastros. Apesar de nunca mais ter consultado um mapa astral, seu prestígio crescera e ele era considerado até por outros astrólogos como um sujeito muito talentoso.
Um dia, ele estava em sua nova cobertura num condomínio chamado Barra UltraBlastResortBeach, ele recebeu um telefonema que o deixou nervoso. Era uma cliente assídua sua, uma socialite daquelas turbinadas que estava sempre pedindo que ele tentasse dar uma recalchutada nas previsões pro seu signo, Peixes, numa de deixar Peixes menos peixe morto. Ele já atendeu risonho, depois de engolir seu martini:
-Salve, minha Loira! Achei que vocÊ ainda tava lá nas ilhas Gregas... o que vai ser essa semana? "Peixes vai estar propenso a prosperar financeiramente" ou "sua lua em júpiter vai te proporcionar uma reviravolta amorosa"?
-Ah, Jonas... Snif... Nem me fale... É que, lá nas ilhas gregas, eu terminei com o Sílvio. Sabe, o Sílvio ministro?
-Aquele envolvido naquele escândalo?
-Ele mesmo.
-Então eu vou botar assim: "Peixes hoje vai sair de qualquer depressão em que tenha entrado e vai brilhar..." Daí vocÊ vai e arrasa lá na Baronette, mas antes deposita a quantia de sempre na minha conta, e...
-Você não entendeu, Jonas. Não é isso que eu quero. O Sívlio respeita muito o seu horóscopo... E eu quero que vocÊ ACABE com o Sílvio. Combinado?
-Ih, minha filha, pra falar mal o preço é acrescido de cinquenta por cento.
-Eu pago, eu pago.
-E qual é o signo do infeliz, querida?
-Capricórnio.

Opa, Capricórnio não.Aquilo era um problema. Desde que iniciara a sua "máfia", a única coisa que tinha permanecido exatamente igual era que ele falara sempre muito bem de Capricórnio. Coisa de suas relações com o seu primeiro cliente e padrinho, o Doutor Olímpio.

-Eu não posso, meu bem, capricórnio está fora de questão.
-Eu triplico o que eu ia te pagar.
-Minha Loira...
-Eu pago dez vezes o preço da tabela. Eu só quero foder com a vida do Silvio.
Era muito dinheiro. Ele, que tinha sido pobre e vivido numa casa cheirando a mijo a vida inteira, com esse dinheiro poderia se aposentar e abandonar a máfia, se dedicar a outros hobbies, torrar tudo num cruzeiro, sei lá. E além do mais, de uns tempos pra cá o Seu Olímpio andava meio sumido, só sabia que o velho não tinha morrido por que o dinheirinho dele continuava pingando todo mês na sua conta. Vai ver o velho não repararia, ele escreveria uma semana de coisas escabrosas sobre capricórnio e pronto, voltava ao normal.

-Combinado, minha loira.
-Você é um amor, Jonaszinho.
-Amor é o som do seu dinheirinho pingando, coração.

E Jonas, animado com o pagamento, fez um senhor trabalho, empolgado com o seu próprio talento. Muitos Capricornianos se suicidaram, tantas foram as desgraças que Jonas previu. O tal do Sílvio, transtornado com os escritos de Jonas, se embananou com os depoimentos que tinha que dar pra CPI do não sei o que e acabou preso por quebra de decoro parlamentar. Jonas estava rindo de orelha a orelha, checando na internet a sua conta bancária, inchada como um boi pronto pro abate. E era exatamente um boi pronto pro abate que o Jonas era, mas sem saber. Estava de noite. Uma noite sem nuvens naquela cobertura de frente pro mar.

E foi então que trovejou. MUITO alto.

- Você vai aprender a não brincar comigo, seu moleque.
-Caralho! Quem tá aí?

A primeira voz que falou vinha do alto, e era muito grave.A segunda era a de Jonas mesmo.

-Zeus está aqui. Zeus está em todo lugar. E aqui ele se manifesta contra quem achou que podia brincar com o seu culto.

Todas as luzes da casa de repente se apagaram.

CONCLUI NO PRÓXIMO EPISÓDIO!