De homens e mulheres, as vítimas da sua boca
Ela não guardou mais que um vulto indistinguível.
Deu-se inteira a Baco e o velhaco deu-lhe em troca
No fio de sua vida um centímetro invisível.
Se houve prazer ou se foi tédio e violência
O corpo não diz, não guarda tapas nem carícias.
Mais do que brancura, sua memória é transparência:
Baco, exausto, foi-se, sem pedir ou dar notícias.
Ela encara opaca um opaco azulejo
Enquanto se cobre com a água do chuveiro.
Força sua memória, que lhe é indiferente.
Por algum motivo lhe sumiu todo desejo,
Que ou foi satisfeito ou desgastou-se por inteiro.
Ela sai do banho, coberta de transparente.
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quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010
terça-feira, 9 de fevereiro de 2010
DOURADO - Poema de um mal que acometeu o poeta.
Há uma goma em minha boca, certa pasta
De cor talvez que branca, um branco espesso.
Talvez uma borracha atroz que nunca gasta,
Sempre intermedária entre o leite e o gesso.
A cada termo dito eu sinto que ela engrossa
A mandíbula se move com certa dificuldade
Receio que dentro em pouco tempo eu já não possa
Dizer as coisas compreensíveis que entendo por verdade.
Fica aqui esse registro, já um pouco atravancado,
Que há desejo de ser límpido por trás desse chiclete.
Que não é proposital esse discurso tão melado
Mas é o que me permite esse meu mal que não derrete.
Há desejo de ser límpido, translúcido e dourado.
Há desejo de ser lente por onde tudo se veja
Mas há em mim um monstro espesso e esbranquiçado
Como assim uma espuma há por cima da cerveja.
De cor talvez que branca, um branco espesso.
Talvez uma borracha atroz que nunca gasta,
Sempre intermedária entre o leite e o gesso.
A cada termo dito eu sinto que ela engrossa
A mandíbula se move com certa dificuldade
Receio que dentro em pouco tempo eu já não possa
Dizer as coisas compreensíveis que entendo por verdade.
Fica aqui esse registro, já um pouco atravancado,
Que há desejo de ser límpido por trás desse chiclete.
Que não é proposital esse discurso tão melado
Mas é o que me permite esse meu mal que não derrete.
Há desejo de ser límpido, translúcido e dourado.
Há desejo de ser lente por onde tudo se veja
Mas há em mim um monstro espesso e esbranquiçado
Como assim uma espuma há por cima da cerveja.
terça-feira, 2 de fevereiro de 2010
AMARELO - O Sol
Comparado ao ser que é vivido
O vívido é sempre mais belo.
Nosso sol, perfeito e elindo,
Só sintetiza hidrogênio e helio.
Poderia ter outras substâncias
Como a terra, que é filha sua
Que, tola e cheia de ânsias,
Possui Noventa e duas.
Poderia viver experiências
Sintetizando lítios,
Possuindo tons e essências,
Multi-colorido e vítreo.
Mas sabe que nada é tão lindo
Quanto seu absoluto amarelo
E sabe, sobre ser vivido
Que ser vívido é sempre mais belo.
O vívido é sempre mais belo.
Nosso sol, perfeito e elindo,
Só sintetiza hidrogênio e helio.
Poderia ter outras substâncias
Como a terra, que é filha sua
Que, tola e cheia de ânsias,
Possui Noventa e duas.
Poderia viver experiências
Sintetizando lítios,
Possuindo tons e essências,
Multi-colorido e vítreo.
Mas sabe que nada é tão lindo
Quanto seu absoluto amarelo
E sabe, sobre ser vivido
Que ser vívido é sempre mais belo.
sexta-feira, 29 de janeiro de 2010
PRETO- noite ipanemense
Um por do sol turbulento
Povoado de meios-tons
Nenhum deles vazio ou isento
De certas fáceis emoções.
Na praia uma turba lenta
Esvazia camarotes e frisas.
É que seu olho não aguenta
O preto fundo e sem divisas
Que se advinha agora
No sono dos rubros-roxos.
Fim dos aplausos, é hora
Do adeus dos olhares coxos.
Só poucos permanecem
Diante do preto pré-preto
Do céu que se anoitece.
Um tom sem canduras, direto.
Só os olhares mais sãos
Que desprezam emoções fáceis
Encaram, serenos, os vãos
Do preto sem risos e faces.
Um preto que não veludo,
Um preto que a tudo isola,
Um preto que é preto tudo:
Um preto de coca-cola.
Povoado de meios-tons
Nenhum deles vazio ou isento
De certas fáceis emoções.
Na praia uma turba lenta
Esvazia camarotes e frisas.
É que seu olho não aguenta
O preto fundo e sem divisas
Que se advinha agora
No sono dos rubros-roxos.
Fim dos aplausos, é hora
Do adeus dos olhares coxos.
Só poucos permanecem
Diante do preto pré-preto
Do céu que se anoitece.
Um tom sem canduras, direto.
Só os olhares mais sãos
Que desprezam emoções fáceis
Encaram, serenos, os vãos
Do preto sem risos e faces.
Um preto que não veludo,
Um preto que a tudo isola,
Um preto que é preto tudo:
Um preto de coca-cola.
quarta-feira, 27 de janeiro de 2010
BRANCO - poema de dois.
Uma tela clara, tão clara,
Que a todas as cores desbota.
Que os meios-tons separa
E só os brancos ampara.
Uma tela branca, tão branca,
Que, ao contrário de realçá-las,
De todas as cores arranca
O dom de ser cor não branca.
Essa tela e nós dois
Num sereno lugar sem nome
Que se tivesse seria "depois".
Olhando a paisagem de arroz.
E é a essa alvura completa
Que nós chamaremos "passado"
Nada passou, a vida é uma reta
Sem drama, sem dores, sem meta.
E saudaremos o haver sumido:
Paroxismo do desbotado,
Vivemos sem ter vivido,
Cada qual absolvido.
Cada qual higienizado
De tudo que é tom de terra.
O encontro cauterizado,
O olhar oxigenado.
E então concordadermos:
"Nada houve", "Nada ficou",
E no branco que escrevemos,
O não escrito é que leremos:
Uma tela branca, tão branca
Que ceifa sem dor cada dor
E, sendo absolutamente franca,
Todas as palavras estanca.
Nós dois em silêncio.
Que a todas as cores desbota.
Que os meios-tons separa
E só os brancos ampara.
Uma tela branca, tão branca,
Que, ao contrário de realçá-las,
De todas as cores arranca
O dom de ser cor não branca.
Essa tela e nós dois
Num sereno lugar sem nome
Que se tivesse seria "depois".
Olhando a paisagem de arroz.
E é a essa alvura completa
Que nós chamaremos "passado"
Nada passou, a vida é uma reta
Sem drama, sem dores, sem meta.
E saudaremos o haver sumido:
Paroxismo do desbotado,
Vivemos sem ter vivido,
Cada qual absolvido.
Cada qual higienizado
De tudo que é tom de terra.
O encontro cauterizado,
O olhar oxigenado.
E então concordadermos:
"Nada houve", "Nada ficou",
E no branco que escrevemos,
O não escrito é que leremos:
Uma tela branca, tão branca
Que ceifa sem dor cada dor
E, sendo absolutamente franca,
Todas as palavras estanca.
Nós dois em silêncio.
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