sábado, 14 de abril de 2012

O VELHO E OMAR

O VELHO E OMAR

Por Breno Góes.

Eu ouvi falar do Omar Salomão antes de ouvir falar do seu pai, Waly Salomão. O Waly, imenso poeta, pra mim é antes de tudo o pai do Omar, imenso poeta. O Omar berra poemas no meu ouvido, graças a essa maravilha do MP3, desde que eu tinha quinze anos e me apaixonei por essa banda extinta, mas nunca acabada, VulgoQuinho&OsCara. O Waly veio depois, com os estudos, a paixão por poesia e esses lugares comuns do desenvolvimento de um cara que faz Letras. O afeto primeiro é mesmo pelo Omar. Tudo o que eu disser aqui eu peço humildemente pra que seja entendido pelo prisma da grande admiração que tenho por esse cara.

A culpa do que eu vou contar é, antes de tudo, do Rodrigo Cascardo. Foi ele que escreveu uma tese sobre o amadorismo na contemporaneidade e trouxe o fogo, que queima quando clareia, pras minhas ideias. E ainda por cima me convidou pra defesa. Honra indescritível. Tudo o que eu mais amo na zona sul da minha cidade estava representado na sala daquela defesa de dissertação: os Dentes, os Irmãos Brutos, o Qinho, a faculdade de Letras, a Adriana Maciel, o NELIM, Omar Salomão... pra não falar do próprio Rodrigo, o grande Casca. Foi na defesa dele que eu entendi, mas muito também pelas palavras do Miguel Jost, que esses meus ídolos são uma geração coesa, com ideias próprias, um projeto lindo e terrível: superar tudo o que resta de ranço modernista no Rio, no Brasil e no Mundo. Implantar, como se já não estivesse implantado o suficiente, o caos do pós-moderno. Assistindo o falar seguro e azeitado, mas propositalmente fragmentado e abstrato, de todos eles, eu tive a certeza de que eles vão conseguir. Pior pra mim, que ao invés de ser pós-moderno me identifico com esse velhote que morreu ontem, o moderno. Estou ferrado.

O ritual todo de mestração do Casca, lindo, se encerrou com uma frase fortíssima do Miguel Jost sobre abolir os artigos definidos, coisa que, sem ironia, me pareceu definidora. A síntese de um projeto coletivo. Foi a deixa pra irmos todos pro Astro-Bar, ali perto do planetário. É importante ressaltar que até então na minha cabeça os incendiários eram, sobretudo, o Miguel e o Casca. Além, claro, da presença quase palpável do incendiário-mor Ericson Pires. Enfim, tudo isso pra dizer que eu nem desconfiava d’Omar. Omar estava calmo, sem dizer palavra, enquanto eu, igualmente taciturno, mastigava débeis pensamentos que eu vim construindo na minha cabeça. Minha paupérrima defesa do pó moderno diante do pós-moderno.

Enfim, comemos, bebemos e rimos.

Nesse ponto a memória vacila, pisca, falha, e o flash seguinte já pega a minha querela com o Omar in media res. Sem que eu saiba dizer como nem por que, estávamos inflamadamente discutindo a identidade do autor. Eu estava repetindo, pra variar, o meu já gasto discurso de que é falho analisar uma obra pelo contexto em que ela foi produzida, por que esse raciocínio em última análise ia nos colocar diante de categorias absurdas, como “Literatura-negra-lésbica-judia”, o que era um condicionamento prejudicial do autor. O Omar falou que era impossível o autor fugir da sua identidade de origem. Presumivelmente o mesmo raciocínio era extensivo ao leitor. Eu disse que essas identidades eram todas inventadas, o cara tinha que ter a liberdade de, se quisesse, ser preto e nazista. Escândalo na mesa. O mestre Júlio Diniz me deu um “pedala Robinho”. O Qinho pra sempre se desiludiu comigo. Omar me chamou de Alga. Disso eu gostei. Alga d’Omar.

Brandi, contra ele, Paulo Henriques Brito e Borges. Ele brandiu de volta Antônio Cícero e... Borges. Nós dois admiramos os quatro autores que acabo de mencionar, então os golpes foram todos pouco efetivos. Ele disse que o Borges se dizer Inglês era uma máscara que escondia uma intensa e profunda argentinidade. Eu disse que a máscara do Borges escondia uma intensa e profunda coisa nenhuma. Não com essas palavras, é claro. Vale dizer que com essa minha parca prosa estou tirando muito da eloquência das palavras d’Omar e colocando muito mais nas minhas, uma injustiça imensa. Nessa hora eu intimamente lembrei que o personagem que estava faltando naquela Astro-mesa de bar era o Frederico Coelho. O Fred teria as palavras certas pra acabar de vez com meus modernismos tardios. Já fez isso sistematicamente nas duas ocasiões em que eu tive aula com ele. Omar, que como poeta é uma máquina de ressignificar palavras, disse que quando uma pessoa só sabe discutir berrando esse ato é chamado de Brenar. E como, e quão intensamente, eu brenei nessa noite...

Fera ferida, apelei para as minhas últimas forças argumentativas. Bradei que eles tinham medo de discutir a forma. Que a forma era uma senhora esquecida mas ainda enxuta. Omar disse que a discussão da forma era vazia. Eu só pude concordar, apreciador que sou dos vazios. Eu disse que a forma era a discussão mais importante do modernismo, e o Omar quase chorou de desgosto percebendo o quão perdida estava a minha geração. Por respeito ao Gus Levy dos Dentes, que tem a minha idade, ele não disse nada sobre isso. Eu estava sozinho. Sozinho de um jeito que só falava mesmo por não ter como voltar a trás, já que intimamente eu sabia que estava diante dos melhores e mais implacáveis adversários possíveis nessa questão toda. Gente que tinha estudado anos pra demolir discursos como o meu. Devia era ter virado pro Omar e dito que sim, ele que se conformasse por que a minha geração estava irremediavelmente perdida. Dessa vez fui eu que fiquei quieto em respeito ao Gus. Ao invés disso, soltei meu extertor final para ser definitivamente sepultado pelo Casca, que como foi o cara que começou a minha via-crucis também tinha que acabar com ela:

EU: Eu quero fazer uma análise formal do Ventura, do Los Hermanos. Acho que falta isso. Uma análise verso a verso. Eu não tenho medo do difícil.

CASCA: Isso não é difícil. É só inútil.

E o resto foi silêncio, pra mim.

Omar voltou a ficar tranquilo, nada nele adivinhava o meu recente naufrágio. Me restava melancolicamente terminar a cerveja, pagar e pegar o ônibus. E escrever esse negócio, claro. Mas o que eu tenho mesmo pra dizer é: Deste lugar de pó moderno dissolvido n’Omar de pós modernos, eu só posso mais uma vez reconhecer a grandiosidade, e a generosidade ao conversar comigo, de todos esses: O Júlio, O Fred, A Adriana, O Miguel, O Casca, O Qinho, O Gus, O Ericson e, claro... Omar. Ainda gosto dos artigos definidos, que me perdoe o Miguel. Tenho, e muitos modernos e moderninhos têm, que ler o que eles tem produzido, beber deles e com eles. Pra não falar da Santuza. Como não falar da Santuza? Por cima e por dentro das dores, os tempos são de vitalidade na PUC e no Rio, graças a gente como eles. Gente muito inteligente e coesa, por que a solidão apavora. Nessa noite eu entendi que eu sou, embora menos sábio, muito mais velho que Omar.

quarta-feira, 29 de junho de 2011

As entranhas de Ian- episódio 1

...pois é, pessoal, decidi voltar a postar aqui. Cansei da minha última tentativa de folhetim e resolvi começar esse outro. Como eu acho que o problema do último foi que eu bolei a história toda na minha cabeça antes, me cansando dela muito rápido, dessa vez resolvi voltar a fórmula de "Professor Olímpio contra o Horóscopo", meu primeiro folhetim: escrever erraticamente. Agora o protagonista é IAN, um poeta, cujo nome é inspirado no meu amigo Ian Capilé. Espero que gostem.

PRÓLOGO:

Quando a editora topou editar meu livro eu agi como Deus no Gênesis: olhei e vi que era bom. Depois, assim como Deus no episódio da arca, me arrependi. Incapaz de lançar um dilúvio na editora em questão, no entanto, tive que me contentar em salvar os exemplares do meu livrinho de poemas para colocar no quartinho da empregada aqui do meu apartamento, desde então apelidado de "arca de Nair". Nair é o nome da empregada. O meu é Ian.

INÍCIO MESMO:

Deixe eu re-escrever o parágrafo acima com menos metáforas e mais informações que tornem a história mastigadinhamente compreensivel: escrevi um livro, vejam só. Consegui uma editora que me prometeu publica-lo. Marinheiro de primeira viagem, no entanto, não me dei conta de que editar e distribuir fossem coisas diferentes. O que quer dizer que as letras miúdas do contrato que eu assinei diziam "claramente", se bem que nada escrito com tipo 7 é claro, que a editora não tinha obrigação nenhuma de colocar o livro pra vender na praça. O que na verdade explica por que eles cobraram adiantado de mim pra fazer a edição. O resultado desse mal-entendido, em que o editor foi mais mal do que eu fui entendido, foi que eu acabei com o quarto de minha empregada Nair abarrotado de livros que eu não fazia idéia de como fazer chegar às livrarias.

O entrave durou alguns meses. Minha primeira e imediata medida foi ir às maiores e mais respeitadas livrarias da cidade oferecendo meu produto, heroicamente levando exemplares do meu livro de porta em porta por entre os nobres templos do prazer. O resultado de minha peregrinação foi que em pouco tempo eu reuní material para escrever um novo livro, desta vez intitulado "As mais variadas formas de se dizer não a um escritor". Também comprei um exemplar de "Diário de um Banana" sugerido por um vendedor. Achei simpático.
Sem desistir, decidi entrar de cabeça na revolução digital e anunciar que estava vendendo meus livros no facebook. Fiz um cartaz usando o Paint, mandei os amigos curtirem... Cheguei a considerar uma campanha viral divulgando o meu livro que incluiria uma sex-tape minha com a Nair, mas na última hora achei que não seria bom propor isso para a mais intimidadora criatura que jamais andou dentro de um avental em toda a face da terra. Aliás, nos meus momentos antes de dormir, fico imaginando se Nair e o avental não são uma coisa só.

Sem a campanha viral, minhas vendas on line foram pífias. De admiravel nessa época só me lembro da disposição da minha mãe ao criar em torno de 15 perfis falsos na rede somente para comprar 15 exemplares diferentes do meu livro. Descobri isso depois de notar que ela colocara a mesma data de nascimento em todos os "fakes", além de que todos compartilhavam um estranho gosto por waldick Soriano. Minha mãe não é nenhum Fernando Pessoa com heterônimos, notei. Assim que dei pela coisa liguei pra ela agradecendo. mas dizendo que ela não precisava se preocupar, que logo o livro ia começar a vender bem. Foi surpreendente ouvir minha mãe gargalhar de novo, acho que a última vez em que ela riu assim foi na vez em que soltou um pum na casa da Tia Nicinha, no natal de 2000. Acho que deixei transparecer o quanto fiquei magoado com aquela gargalhada quando desliguei, por que ela nunca mais apareceu com nenhum perfil falso ou verdadeiro.

Meu desânimo só não tomou conta de mim nesse momento por que Nair escolheu bem essa época para considerar insustentável dividir quarto com 500 exemplares de "Entranhas", que era o título do meu livro. Num dia de faxina, em que eu providencialmente saí de casa para passear, a minha meiga secretária para assuntos domésticos discretamente abarrotou todo o meu quarto com eles. Quando eu cheguei e, depois de recuperado do choque, perguntei o motivo de tão intempestiva ação, ela mandou eu ficar quieto e não encher o saco, por que ela tinha muito serviço pra fazer. Não questionei. Desde esse dia, passei a dormir cercado pelas minhas próprias entranhas. A nojeira metafórica dessa constatação foi a conta. Decidi que era hora de tomar uma providência definitiva em relação à questão.

CONTINUA NO PRÓXIMO EPISÓDIO

segunda-feira, 13 de junho de 2011

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Paradoxo

Hoje conheci uma menina que se formou em biblioteconomia e foi trabalhar numa biblioteca especializada em re-seguros, que são os seguros que as seguradoras fazem para si mesmas. É, eu sei, eu vou até repetir pra você ficar tão bolado com o fato quanto ele merece. Re-seguros: São os seguros que as seguradoras fazem pra se segurarem, pra se assegurarem de que vão ser ressarcidas em caso de necessidade. Re- seguros, os seguros das seguradoras. Isso me tirou de uma depressão e me pôs em outra, rapaz: foi daí que eu me toquei que a minha vida é muito tranks, super bem obrigado, normal toda vida. A menina que eu conheci me disse (ou melhor, está me dizendo, escrevo enquanto ela conversa comigo) que o re-seguro é um negócio que movimenta bilhões de dólares por mês. Não milhões, ela enfatiza, BIlhões.

Diante disso, como não cair no lugar comum de dizer que somos pequenas peças, inconscientes do fato de ser engragens de um mundo grande demais para que o compreendamos? Tipo assim os caras que tomaram a pílula errada na Matrix? Como não pensar nas grandes conspirações dos maçons iluminatti da bavária, nas corporações do mal, nos vilões de James Bond com gatos no colo? Re-seguros! Lembro de uma empregada que minha familia teve quando eu era criança que tinha... uma empregada! Não sei se isso quer dizer alguma coisa, mas pelo menos a piração da minha vida particular acompanha a piração do mundo todo. O fato de eu escrever esse texto dentro de uma biblioteca me faz pensar no Borges, que eu acho que saberia rir disso tudo. Aqui tem um livro sobre revisão de textos, e eu estou com medo de olhar quem revisou o livro, sei lá, de repente minha cabeça pifa ainda mais. Não que eu não seja escolado nessas coisas: Quando eu era criança a minha casa tinha um lance que era assim: Um espelho numa parede e outro na parede oposta a ela, fazendo aquele jogo de reflexos infinitos. Cara, eu passava horas ali só vendo se conseguia enxergar onde ficava o último reflexo meu. Re - flexo. Re - seguro. Se eu fosse o Arnaldo Antunes eu fazia uma música com isso daí. Se eu fosse o Michel Melamed eu fazia uma daquelas peças-poemas.

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

A Última Reunião de Cúpula do Comando Vermelho.

(burburinho intenso entre os membros do estado maior do narcotráfico no alto da vila cruzeiro. Manhã de quinta feira.)



Chefe 1: Tô falando, a gente tem que ralar peito. Eu vi na tevê, os malucos vão subir com a porra toda, BOPE e o cacete. Não dá pra negociar, o Cruzeiro vai cair.



Chefe 2: Koé, irmãozinho, vai ficar ai na vacilação? Tu não ta ligado que o armamento aqui dos irmão é o mais tenso da cidade? Não tem esse papo de fugir não, lek, aqui o bagulho é doido.



1: Kóe Qual foi, ô rapá. Até parece que tu não tá ligado que não tem arma que fura a porra do caveirão. Aquilo lá é blindado, lek! Tá ligado colete? Aquilo lá é carro de colete.



2: Iiih, o irmãozinho aí nem sabe das parada nova. Aqui ninguém tem mais medo de caveirão não, lek, já sacamos qual é a da parada. O lance é o Pneu, rapá. Se a gente escrota a porra do chão todo com uns bagulhos que fodam o pneu do bicho aquela porra não anda mais!



1: É papo serio?



2: Koé, tu acha que eu to de kaô? Já testamo isso no Jacarezinho!



1: É bom tu não tá, por que se os caras chegarem aqui no alto a gente não tem como lutar não, que o armamento dos filhas da puta é foda. A gente vai ter que se mandar pro alemão, e aquela porra daquela trilha é mato aberto. Por isso que eu to falando, se é pra fugir vamo agora, se não vai ser um puta perigo e um puta vexame.



2: Relaxa, ô Mané. Tu tá é se cagando depois que viu o piratão que nós comprô lá do tropa dois. Tu se caga pro capitão nascimento. Se eles vié com helicóptero nós derruba, tu já sabe que a gente consegue essa parada. E se eles vié de caveirão... A porra da favela já tá toda barricada! Barra de metal , carro, móvel, até caminhão! Pra passar por aqui, só com um tanque de guerra! HAHAHAHAHAHA



Chefe 3 (Que ainda não tinha aparecido na história): Caralho, que porra é aquela que dá pra ver na janela, maluco??? Fudeu, fudeu, fudeu!!!!!



(Pânico na reunião do Estado Maior do Narcotráfico da Cidade. Em poucos segundos a sala fica deserta. Black Out













quarta-feira, 27 de outubro de 2010

O Terço do Pedro


Mais uma vez eu queria falar de eleições. Mas mais uma vez a pasmaceira delas foi atropelada por uma coisa mais interessante. Dessa vez o relato auto-biográfico de uma experiência completamente estranha que eu vivenciei ontem, aparentemente um "must" da Zona Sul do Rio que já rola a muitos anos, proporcionado pelo puro boca a boca, sem ajuda da imprensa.

Eu estou com a minha companheira. Quando eu e ela chegamos ali na igrejinha que tem em frente ao shopping da Gávea, a missa das 18:00 está pra começar. O padre vem se encaminhando quase entediado pro altar, e eu noto que os bancos estão estranhamente ocupados: Apesar de razoavelmente cheios de pessoas, possuem também lacunas ocupadas simplesmente por bolsas, chales, casacos... Todas essas coisas que o carioca (aliás, qualquer pessoa) usa pra "marcar lugar". É terça feira. Chove cântaros. O padre é um saco. A igreja não é especialmente bonita. E no entanto, a julgar pelos objetos, tem muita gente interssadíssima em estar ali.

É claro que eu não estava chegando totalmente desavisado naquele local. Se estivesse, eu sairia logo no começo da missa, em que o padre lê justamente a carta bíblica que diz que a mulher deve ser submissa ao marido. Acostumado com a pregação de Padres mais progressistas (mas só um pouquinho), esse papo me irita. Mas não. Diferente do cachorro, que só entrou na igreja por que a porta estava aberta, eu tinha uma noção do que me esperava ali dentro. Ou, por outra, eu achava que tinha.

Ao longo da missa (chatíssima e burocrática), a igreja vai enchendo. Muito. Praticamente indiferente ao sermão do Padre, dezenas de pessoas (a maior parte delas mulheres) vão ocupando os lugares antes preenchidos pelos chales, casacos e bolsas, e pequenos conflitos e picuinhas bem mundanos começam a se instaurar na casa de Deus. Aqui uma senhora diz que aquela outra senhora não pode guardar mais do que cinco lugares, ali aquela outra implora uma cadeira pro tio que tem Alzheimer. Aquela última parte da missa que vem depois da eucaristia, em que o padre pede as pessoas que elas se abracem na "paz de cristo", é sumariamente suprimida. O Padre (que, eu esqueci de dizer, tem um sotaque meio espanhol, como quase todo padre) sai de cena e ninguem nota.

A igreja não para de se encher. As pessoas vão se acomodando de todas as formas, e inclusive agora que o altar está vazio elas não se furtam a conspurca-lo também, sentando-se ali como podem. A conversa aumenta, a temperatura aumenta. Quando nos damos conta um coroinha já ligou um ar-condicionado no máximo e uma simpática senhora do nossao lado é obrigada a dialogar com o sujeito como se eles estivessem na fila da peixaria do Asterix. Os focos de barraco são contidos com dificuldade por uns poucos "psius" desentusiasmados. Apesar disso somos brasileiros, creio que todos estão felizes e satisfeitos com alguma bagunça. A igreja de repente vira uma grande sala de assembléia, não de Deus, mas do homem mesmo, com todas as suas miudezas e mesquinharias. Eu e minha companheira já estamos a muito tempo bem instalados em duas cadeirinhas de plástico na lateral da nave, mas nossa posição é súbitamente ameaçada por uma velha senhora meio alemã, que já se sentara, mas parece fazer questão daqueles lugares para uns amigos hipotéticos dela. Não cedemos. A igreja parece agora cem por cento lotada e ninguem tem ânimo de sair dali.

Já mencionei o quanto chove? Chove muito. Mais do que você está pensando, pense grande. Isso. Por aí. Pois bem, com essa chuva toda, eu de repente reparo que existem dezenas (serão centenas, meu Deus?) de pessoas grudadas nas janelas com vitrais da igreja. Rostos e mais rostos semi-encobertos por guarda-chuvas, que aguardam ansiosamente. Vinda sei lá daonde, no altar surge uma jovem moça chilena, muito bonita, que diz que veio falar sobre o corpo místico de Cristo. Moça, o que é o corpo místico de cristo? Nós somos o corpo Místico de Cristo, ela diz. Ela diz e ninguém parece estar escutando. Uma lojinha de souveniers instalada do lado de fora da igreja disputa atenção com a chilena e aos poucos vai-se notando que a loja dá mais ibope. Eu e minha companheira compramos terços (na verdade ela vai e compra pra nós, se não nossas cadeirinhas de plástico seriam ferozmentemente tomadas) e finalmente parece que a coisa já vai começar. A moça chilena termina seu discurso com muita paixão, mas é só burocraticamente aplaudida antes de sair de cena. Sobem agora no altar (tomando cuidado para não pisar nos fiéis sentados) uns dois ou três técnicos de som carregando pedestais, fios e microfones. Show Time. Pedro entra em cena já empunhando seu violão e eu quase ouço, mas acho que foi só a minha cabeça, alguém dizendo pra ele "vai lá e arrasa!".

Pelo que eu pesquisei depois, o terço do Pedro é um lance que já rola a mais de dez anos. O Pedro não é o Papa, não é nem padre, mas é seguramente POP. Bonito, arrumado, educado e inteligente, possui ainda a vantagem de tocar violão de um jeito muito mais autêntico do que a maior parte dos músicos de igreja. O repertório não instiga muito, são as mesmas canções água com açucar da chamada "renovação carismática", mas a voz do cara é agradavel de se ouvir e até empolga. Pedro fala algumas palavras à guiza de conselho, e de cara vê-se que ele tem incomparavelmente mais carisma do que o padre e a moça que o precederam.

A pessoa precisa mesmo de carisma para, uma vez por mês, fazer o que Pedro se propôe a fazer. Não é uma missa, não é um show, não é uma sessão de auto-ajuda, embora possua elementos dessas três coisas. O que acontece dentro daquela igreja super-lotada é, pasmen, uma das práticas mais antigas e fora de moda da religião católica: a reza do terço! A grande questão do "terço do Pedro" é o que leva tantas pessoas a gastarem mais de uma hora de seus dias atribulados (e debaixo de chuva, não se esqueça) reazando a bagatela de:

53 Ave-Marias
6 pais nossos
5 Mistérios
5-Glórias

E volta e meia um credo, ou um santo anjo....


O que leva?

A grande questão não está (não só, veja bem) no talento violonístico de Pedro. Não. O grande lance dele não é o ouvido músical, mas o ouvido Sobre-Natural: A coisa fundamental que eu escondi de vocês até aqui é que Pedro é conhecido por ter o Dom do Espírito Santo, ou seja, uma linha direta com Nossa Senhora que lhe permite dar mensagens, conselhos e até prever o futuro. As pessoas que abarrotam a igreja estão ansiosas (e no fundo eu estava ansioso também) para ouvir uma das muitas mensagens que a virgem deveria passar para Pedro. De repente toda a nossa fé no positivismo científico, todas as nossas críticas aos padres pedófilos, todo o nosso posicionamento moderninho de esquerda, tudo isso parece não ter importância. Estamos todos rendidos escutando Pedro e, a grande estrela, a Virgem.

E os dois não decepcionaram: Foram muitos os recados dados, alguns extremamente genéricos e outros tão específicos que continham até o nome da pessoa envolvida. Um homem com tumor no cérebro foi avisado de que o tumor era superficial. Uma jovem (que teve seu nome anunciado) foi aconselhada a se livrar de um namorado insistente. Um homem foi tranquilizado pela virgem, pois "apesar de sua música estar encaixotada em meio a processos enfadonhos, ela irá progressivamente crescer". Uma família foi avisada de que um membro seu que tinha uma doença grave iria se recuperar. Não sei bem o que passou pela minha cabeça nessa hora, mas acho que teve a ver com fé. Fé sincera na energia daquela gente rezando junto.

A coisa se dá de forma tão intensa e catártica que eu quase puxei um aplauso ou um "bis" no final, de tão empolgado que fiquei. Mas, mesmo que eu tivesse feito isso, não teria sido seguido, pois a maior parte dos fiéis está muito mais interessada em ir até Pedro. É dificilimo chegar até ele. Muitos parecem desesperados para saber se ele possui mais um recado de Nossa Senhora, algo que, quem sabe, diga respeito diretamente a elas. As outras pessoas vão, em hordas, saindo da igreja num papo animado. Nada daquele clima meio paradão de "pós-entorpecimento" que a maioria de nós experimenta depois de uma missa. Alguém arma uma mesinha com lanche na porta. Ouço duas moças combinando de se re-encontrarem ali mesmo no mês que vem, no próximo terço. Eu me pergunto se assisti a um milagre da magia, da religião ou simplesmente da sociedade. Ou de todos esses. Muitos enxugam os olhos, parecem ter chorado muito durante a nada cerimoniosa cerimônia. Dificil acreditar, no instante em que saímos porta a fora, que estamos no Rio de Janeiro, século XXI.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

GILBERTOS

Queridos amigos, ando desanimado em continuar a história das "peças de ouro". Ela está todinha na minha cabeça, mas ando sem saco de escrever. Nesse meio tempo pensei em escrever algumas coisas sobre as eleições, mas a quantidade de chatices que eu tenho recebido é tão grande e o nivel das campanhas está tão ridiculamente baixo que eu me desanimei disso também. Mas isso no fundo até que é bom, por que essa conjunção me animou a escrever sobre uma coisa que eu gosto muito mas sobre a qual eu raramente paro pra pensar de forma "analítica": Música! Espero que vocês leiam e gostem, especialmente por que, entre Ians, Gustavos, Suts, Brancos e Lauras, quase todos os leitores desse blog são violonistas.

















Gilbertos.

O Caetano escrevendo quase sempre é uma desgraça, mas ainda assim eu tenho o bom hábito de ler quase tudo que ele escreve. A pessoa, quando faz isso, pode encontrar algumas pérolas a princípio escondidas no mar de frases de efeito e achismos que é a sua prosa. Esses dias, assistindo pela milésima vez o DVD “Banda-dois” do Gilberto Gil (que é sobre quem eu quero falar, na verdade) eu me dei conta de que concordava em parte com uma frase contida no “Verdade Tropical” com a qual eu a princípio discordara veementemente. Cito aqui o trecho em questão:

“De todo modo, parece-me que minha escolha indica que o mais importante do violão brasileiro se passou nas revoluções aparentemente despretensiosas de autores-cantores que usavam o instrumento apenas para ‘se acompanhar’ do que no concertismo mais ou menos brilhante dos solistas”

Claro que eu, por princípio, deveria discordar do que foi dito. Sou filho de um grande violonista clássico, por conta de quem conheço alguns grandes nomes do meio, e entendo que essa frase despreza sumariamente a contribuição de gente como o Duo Assad, Egberto Gismonti e Carlos Barbosa Lima, só pra citar alguns dos meus solistas prediletos. Quando assisti o DVD do Gil, no entanto, compreendi finalmente o que o Caetano queria dizer. Mantenho minha posição de reverência aos solistas aqui citados, mas agora vejo que há na música popular, em que o violão é acompanhamento, um desenho tortuoso que faz toda uma trilha de relações possíveis entre os paradigmas COMPOSIÇÃO x INTERPRETAÇÃO, e que essa relação pode tranquilamente ter sido o fato “mais importante do violão brasileiro”.

Comecemos por João Gilberto. Não que a história do violão de acompanhamento pré-João Gilbertiana não seja interessante, mas é em João que toda uma tradição de meneios e floreios do violão de samba é finalmente sintetizada em uma estrutura ascética e claramente delineável: a famosa “batida” da bossa nova. João limou da estrutura rítmica de seu samba tudo o que não fosse absolutamente essencial, chegando a uma estrutura mínima tão potente que só pode ser explicada como um novo gênero musical (ainda que João tenha dito e repetido que o que ele faz é simplesmente samba). Violonista e cantor de virtudes únicas, João Gilberto não foi um compositor prolixo, assinando apenas “Bim-bom”, “Ho-ba-la-lá” e alguns temas instrumentais, sendo a sua maior virtude a sub-versão de músicas de outros compositores, que em suas mãos revelavam-se e adquiriam novas faces antes insuspeitas.

Despretensiosamente, vamos ouvir e pensar. Quais são alguns dos caracteres fundamentais do violão de João Gilberto? A batida, claro, é a pedra base. A harmonia complexa também não pode ser esquecida, e a relação sincopada entre a instrumentação e a voz talvez seja o terceiro fator mais importante. Esses três dados atravessam de forma vertical praticamente toda a obra de João, criando uma relação em que a música a ser tocada se submete a uma linguagem do músico. Sambas, Bossas, Choros, Boleros, Baladas, toques de candomblé... tudo isso, quando tocado por este músico, ganha a batida, as harmonias complexas e a síncope. O violão de João é assertivo, masculino: em João Gilberto, o músico prevalece sobre a música.

Ora, se pensarmos que João é reconhecidamente a grande influência de gente como Chico Buarque, Edu Lobo, Jorge ben, Roberto Carlos e os próprios Caetano Veloso e Gilberto Gil, e se pensarmos ainda que tudo o que aconteceu posteriormente na música popular brasileira teve influência de alguma dessas figuras, podemos assumir que João inaugurou uma tradição, e não há dificuldade de entender que muito disso se refletiu na forma de tocar o violão por parte dos brasileiros e brasileiras. Penso agora em três exemplos de seguidores claros de João: Jorge ben, João Bosco e Lenine, três violonistas que desenvolveram suas próprias batidas (todas geniais, diga-se), submetendo a elas um variado escopo de músicas.
Pois bem. No DVD “Banda Dois”, do Gil, eu me dei conta de que essa tradição tinha dado origem a uma contra-tradição tão poderosa quanto. Acredito que Gilberto Gil (que ouviu muito João Gilberto) tenha sido o grande responsável por essa mudança de paradigma, mas reconheço traços dessa contra tradição também no violão de Guinga, por exemplo. Mas o que seria essa contra-tradição? Explico-me. O DVD do Gil, que mostra ele quase o tempo inteiro sozinho com seu violão, é uma jóia para qualquer um que ame o instrumento: Gil enxerga a canção antes de enxergar o arranjo, submetendo este a esta. A cada faixa a sua forma de tocar muda radicalmente, sempre para incorporar soluções novas e inventivas que possam dar vazão a algum traço daquela canção específica. É impressionante que a forma curiosa de usar as cordas soltas em “Refazenda” tenha vindo da mesma cabeça da harmonia acompanhada de linha de baixo de “Esotérico” e é mais impressionante ainda que ambas sejam obras do mesmo violonista que compôs a mão direita nervosa de “expresso 2222”. O violão de Gil é passivo para que a música o oriente, assertiva. É feminino como a porção mulher da canção “Super-Homem”. É a música guiando o músico.

Compreendo melhor, a partir de um diálogo entre essa tradição e dessa contra-tradição do violão brasileiro, o momento que o instrumento vive hoje na música pop, nas mãos responsáveis de gente como Chico Cesar e Paulinho Moska. Esses, como o próprio Caetano Veloso, são violonistas que equilibram suas “batidas” pessoais com determinadas invenções guiadas pela música que eles estão tocando, gerando peças de rara beleza e grande inventividade. Se muitas dessas interpretações, como grande parte das linhas de violão feitas por Gil, são assombrosamente simples, só quem ganha é o amador que, como eu, busca beber nas águas dos grandes mestres. João Gilberto e Gilberto Gil, o masculino e o feminino, me fizeram entender que a música pop é sim um terreno muito fértil para a invenção violonística, seja com uma postura assertiva ou passiva diante da canção, e é inspirador seguir a linha evolutiva do instrumento por eles escolhido. Sem demérito algum para os nossos grandes solistas (viva os Assad!) eu passo a ver essa dialética entre os Gilbertos como, sim, o “mais importante do violão no Brasil”.